Transformamos o amor em espetáculo porque tememos o silêncio que revela quem realmente somos quando o palco se apaga.

Por Silver D’Madriaga Marraz
Amar, hoje, tornou-se um ato público. Já não basta sentir; é preciso demonstrar. O amor, antes território íntimo, migrou para o palco das aparências, onde a emoção é medida por gestos visíveis e a sinceridade se confunde com exposição. Vivemos tempos em que o afeto se transforma em linguagem performática — calculado, editado, compartilhado. O que deveria ser encontro tornou-se espetáculo. E o que era emoção passou a ser estratégia.
A performance do amor não é uma invenção contemporânea, mas o espelho de uma sociedade que transformou tudo em narrativa. As relações afetivas, contaminadas pela lógica da visibilidade, passaram a existir apenas quando vistas. Beijos são capturados, jantares são postados, declarações são roteirizadas. O amor tornou-se conteúdo. O silêncio, suspeito. A ausência, sinal de desinteresse. O afeto, para ser reconhecido, precisa de audiência. E assim, amar deixou de ser verbo de interioridade e tornou-se gesto público, controlado por olhares externos e algoritmos invisíveis.
O problema não é a demonstração do amor, mas sua instrumentalização. O afeto, convertido em capital simbólico, serve para afirmar status, conquistar aceitação, projetar identidade. Amamos para provar algo — para alguém, para o outro, ou para nós mesmos. O amor, nessa lógica, perde a sua densidade e se transforma em performance de pertencimento. As relações deixam de ser refúgio e tornam-se vitrines: o casal ideal, a amizade perfeita, a felicidade planejada. Tudo é administrado como uma marca, e o sentimento se torna estratégia de autopromoção.
O amor performático é, paradoxalmente, um amor inseguro. Precisa ser reafirmado o tempo todo porque não sabe mais permanecer. É o amor que se mede por respostas, curtidas e reciprocidades imediatas. É o amor que tem medo do silêncio e horror ao tédio, porque o vazio o denuncia. O afeto, nesse contexto, passa a funcionar como anestesia: uma forma de preencher a solidão com sinais de presença. Mas o excesso de demonstração não é intensidade — é medo. E o medo disfarçado de afeto é o que nos distancia da verdadeira experiência de amar.
O afeto estratégico, por sua vez, é ainda mais sutil. É o uso calculado da ternura para obter poder. Nas redes, nos relacionamentos, nas instituições, o carinho torna-se uma moeda de troca. Aprende-se a “cuidar” para conquistar, a “compreender” para dominar, a “ouvir” para manipular. O amor é utilizado como ferramenta de influência emocional. Amar, nesse cenário, já não é doação — é método. E o afeto, que deveria libertar, passa a servir para controlar.
A sociedade contemporânea, centrada na performance e na gestão da imagem, transformou o amor em narrativa gerenciada. O sentimento cedeu lugar à estratégia, e a espontaneidade foi substituída por curadoria. Há quem diga “eu te amo” não porque sente, mas porque aprendeu que deve dizer. O gesto perdeu a inocência. A emoção, o frescor. A verdade, o lugar. E assim, a experiência amorosa — que deveria ser um espaço de vulnerabilidade — tornou-se uma vitrine cuidadosamente iluminada, onde se exibe aquilo que se teme não viver de fato.
Mas há resistência. Ela se manifesta nos amores discretos, nas mensagens não postadas, nos silêncios que dizem mais que declarações. Há algo profundamente subversivo em amar sem espetáculo. Em ser afetuoso sem plateia. Em oferecer presença sem cálculo. O amor, quando não precisa ser visto, recupera sua essência: a de unir, e não de provar; a de sentir, e não de convencer.
Reaprender a amar é reaprender a habitar o outro sem buscar retorno imediato. É permitir que o afeto exista fora da lógica da visibilidade. É aceitar que o amor não é estratégia, mas risco — o risco de se deixar ver por inteiro, sem filtro, sem plano, sem plateia.
Talvez o amor mais verdadeiro seja aquele que não tem performance. Aquele que se faz no cotidiano invisível, nos gestos que ninguém vê, nas palavras que não são ditas para serem lembradas. O amor que não se exibe, mas sustenta. Que não se mede, mas permanece; porque, no fim, o que define o amor não é o quanto ele aparece — é o quanto ele resiste ao desaparecimento.
