Vivemos tão apressados em chegar que esquecemos de estar.

Por Silver D’Madriaga Marraz
A pressa tornou-se o novo ritmo do mundo. Já não se trata apenas de correr, mas de não saber parar. Vivemos num tempo em que a imobilidade é vista como falha, o silêncio como perda de tempo e o descanso como desperdício. O verbo “ser” foi substituído por “fazer”, e o fazer, por “produzir”. A lentidão passou a ser confundida com preguiça, e o ócio, com inutilidade. Assim, o presente deixou de ser morada e transformou-se em corredor — um espaço de passagem para o próximo objetivo, a próxima tarefa, o próximo sucesso.
A cultura da pressa não é apenas um modo de vida; é um sintoma de angústia coletiva. Corremos porque tememos o vazio. Ocupamo-nos porque o silêncio nos confronta. Produzimos sem cessar porque o repouso nos lembra da finitude. A aceleração moderna é uma fuga disfarçada de eficiência. Mas o paradoxo é cruel: quanto mais corremos, menos chegamos. O tempo que tentamos dominar acaba por nos devorar, e o presente — esse instante em que a vida realmente acontece — dissolve-se entre notificações, metas e cronogramas.
O presente, outrora o centro da experiência humana, tornou-se invisível. Vivemos projetados para o futuro ou paralisados pelo passado. O agora é apenas um intervalo funcional entre dois compromissos. O olhar não se detém, o gesto não se aprofunda, o pensamento não amadurece. Tornamo-nos apressados até para sentir. O amor virou impaciência, a amizade, conveniência, a arte, consumo. Tudo precisa ser rápido, prático, leve — mas nada permanece. A pressa, travestida de progresso, é o modo mais sutil de superficialidade.
A indústria da produtividade alimenta essa vertigem. Vivemos sob a tirania dos relógios, das metas e das métricas. Somos avaliados por rendimento, não por presença. Trabalhamos para ganhar tempo e, paradoxalmente, nunca o temos. O tempo humano, elástico e subjetivo, foi sequestrado pelo tempo mecânico — o tempo que mede, compara e exige. Nessa lógica, o corpo se esgota, a mente se dispersa e a alma se cala. O resultado é uma sociedade cansada, conectada e, ao mesmo tempo, ausente.
O desaparecimento do presente não é apenas uma questão de velocidade, mas de sentido. Quando o agora perde o valor, a existência perde densidade. O instante deixa de ser vivido para ser registrado, fotografado, publicado. Vivemos para o arquivo, não para a experiência. Há mais memória do que presença, mais registro do que vida. O tempo, transformado em capital, deixou de ser o tecido da existência e tornou-se mercadoria a ser otimizada.
Desacelerar, hoje, é um ato político. É escolher não participar da lógica que confunde pressa com importância. É reconquistar o direito de habitar o próprio tempo, de respirar entre uma ação e outra, de permitir que o pensamento tenha duração. A contemplação — tão banalizada — é uma forma de resistência espiritual. Ela devolve profundidade ao olhar e devolve humanidade ao tempo.
Reaprender o presente significa reaprender a estar. A perceber o sabor da pausa, o som do instante, a delicadeza do que não se repete. Significa aceitar que nem tudo precisa ser útil, produtivo ou justificável. Que há valor em simplesmente existir. A lentidão é o território da consciência; é nela que o sentido amadurece e a emoção se torna memória.
Talvez a maior urgência da modernidade seja justamente a de desacelerar. Não para fazer menos, mas para estar mais. Estar inteiro em cada gesto, em cada palavra, em cada respiração. O tempo que buscamos não está à frente — está aqui, onde raramente olhamos. O presente não é obstáculo entre o passado e o futuro; é o único lugar onde a vida acontece de fato.
Enquanto a pressa continuar sendo o motor da existência, o humano continuará ausente de si mesmo. E talvez a verdadeira revolução não esteja em acelerar o mundo, mas em redescobrir o valor de um segundo plenamente vivido; porque, no fim, é sempre o instante que escapa que nos ensina o que era essencial.
