Nunca se falou tanto de amor — e nunca se amou tão pouco.

Por Silver D’Madriaga Marraz
O amor, que durante séculos foi território da entrega e do mistério, tornou-se mais uma vitrine na paisagem da visibilidade. Em tempos de performance emocional, amar deixou de ser verbo silencioso para se tornar espetáculo de afetos calculados. Declara-se amor em legendas, mede-se reciprocidade por tempo de resposta, traduz-se presença em notificações. O que antes era vivência íntima e inefável, hoje precisa ser publicamente validado para existir. Assim, o sentimento que deveria nos libertar se transforma em mais uma forma de vigilância: um amor em exibição constante, onde o sentir genuíno cede lugar ao parecer sentir.
O esvaziamento do amor é, antes de tudo, um sintoma de nossa cultura do desempenho. Vivemos num tempo em que tudo deve produzir resultado — inclusive os afetos. Amar tornou-se projeto, investimento, gestão de expectativas. As relações são avaliadas pelo quanto rendem emocionalmente, não pelo que revelam de humano. Criamos um amor utilitário, submetido à lógica da produtividade: só vale se compensa, só dura se satisfaz. No fundo, amamos menos pessoas e mais projeções de nós mesmos refletidas nos outros.
Essa transformação não nasceu do acaso. Ela é consequência direta da aceleração e da exposição que estruturam a vida contemporânea. A afetividade foi capturada pela lógica da imagem. O amor, domesticado pela estética do engajamento, precisa agora ser visto, comentado, compartilhado. É o “nós” transformado em narrativa de consumo. Mas onde tudo precisa aparecer, o invisível morre. E o amor, que sobrevive do não dito, da pausa, do intervalo, vai desaparecendo aos poucos — substituído por simulacros de intensidade.
A performance emocional impõe um paradoxo cruel: exige que sintamos profundamente, mas com moderação; que nos doemos, mas com cautela; que nos mostremos, mas sem jamais perder o controle da imagem. O resultado é um amor tecnicamente administrado — sentimentos filtrados, emoções editadas, afetos higienizados. Perde-se o improviso, o tropeço, o erro, tudo aquilo que tornava o amor um campo de descoberta. Amar, hoje, é uma prática de contenção e cálculo, não mais de vertigem e entrega.
A exposição afetiva também redefine o modo como sofremos. As separações são compartilhadas, as dores são estetizadas, e o luto amoroso se converte em conteúdo de superação. O sofrimento, que antes gerava silêncio e elaboração, hoje precisa ser rentável — render curtidas, gerar empatia performática, provar ao mundo que seguimos “fortes”. Assim, até a dor perde sua profundidade e se converte em superfície de autoafirmação. Sofre-se não para curar-se, mas para mostrar superação.
O esvaziamento do amor está, portanto, no desaparecimento do mistério. Amamos menos porque tememos o invisível. Queremos controlar o que, por natureza, escapa ao controle. O amor, em sua essência, é o lugar da imprevisibilidade — mas o mundo contemporâneo odeia o imprevisto. Ele exige garantias, mapas, algoritmos do desejo. Por isso, amar tornou-se tarefa árdua: é preciso resistir à tentação de transformar o outro em projeto e o sentimento em contrato.
Resgatar o amor verdadeiro exige reabilitar o silêncio. Amar é escutar o que não se diz, é permitir-se vulnerável diante do incalculável. É olhar o outro sem intenção de moldá-lo, reconhecer que há territórios que não nos pertencem. O amor não é administração de afetos, é risco de dissolução. É o encontro entre dois inacabados que aceitam não se completarem — apenas coexistirem com ternura.
No fundo, o que chamamos de “amor moderno” é muitas vezes medo travestido de autonomia. Medo de se entregar, de depender, de perder o controle. Mas é justamente nesse risco que o amor se justifica. Porque amar é aceitar o descontrole como forma de liberdade. É renunciar à armadura da performance para permitir que algo genuíno nos atravesse — e nos transforme.
Enquanto o amor for medido por métricas de visibilidade, continuará a definhar sob o peso da exibição. O amor não precisa ser visto para ser real; precisa ser sentido para ser verdadeiro. Talvez amar, neste século, seja o último ato de resistência íntima possível. Num mundo de aparências, sentir profundamente é revolucionário, porque amar, de fato, não é conquistar nem exibir — é permanecer inteiro, mesmo quando o outro nos desmancha.
