Nunca estivemos tão cercados — e, paradoxalmente, tão sozinhos.
Por Silver D’madriaga Marraz
Vivemos em um tempo em que a solidão deixou de ser destino para se tornar projeto. A cultura do “eu” transformou o sujeito em empresa, a convivência em transação e o outro em obstáculo. Ser autônomo virou sinônimo de ser invulnerável; depender passou a ser sinônimo de fraqueza. E, nessa lógica, o laço humano — que sempre foi o fio invisível da civilização — começou a se romper, fio a fio, sob o peso da idolatria da independência.
O individualismo contemporâneo não é apenas uma escolha moral, mas um sintoma coletivo. Ele nasce de uma sociedade que valoriza a performance acima do pertencimento, a visibilidade acima da escuta e o sucesso acima da solidariedade. O sujeito, pressionado a se destacar, torna-se marca de si mesmo, competindo não mais com os outros, mas com a própria imagem idealizada. Vive para ser visto, não para ser sentido.
Essa exaltação da individualidade produziu uma solidão funcional, administrada em doses de entretenimento e autopromoção. As redes sociais, que prometiam conexão, criaram um simulacro de companhia: uma presença constante e, ao mesmo tempo, absolutamente superficial. Conversa-se muito, comunica-se pouco; expõe-se tudo, compartilha-se quase nada. A vida interior foi substituída por um feed contínuo de aparências, e o diálogo deu lugar ao eco.
O individualismo, porém, não surge do nada. Ele é sintoma de um esgotamento emocional profundo. Em um mundo onde tudo precisa ser rentável, até os afetos se tornaram investimento de risco. Amar, confiar, permanecer — tudo isso passou a exigir garantias que a vida não oferece. Assim, o sujeito contemporâneo, temendo perder-se no outro, ergue muros em nome da autopreservação e, sem perceber, sufoca o próprio desejo de pertencer.
Há uma confusão perigosa entre liberdade e isolamento. O individualismo promete autonomia, mas entrega exílio. Promete autenticidade, mas fabrica identidades em série. A liberdade verdadeira não é a ausência do outro, e sim a convivência sem submissão. Só há liberdade onde existe vínculo, porque é no encontro que o eu se reconhece como existência concreta, e não como abstração narcisista.
O sintoma individualista revela também um medo coletivo: o medo de depender, de confiar, de ser atravessado pela alteridade. O outro, antes espelho e abrigo, tornou-se ameaça. Por isso, o sujeito contemporâneo fala em autocuidado, mas pratica autodefesa; fala em amor-próprio, mas o confunde com isolamento emocional. O resultado é uma sociedade hiperconectada e emocionalmente anêmica — onde todos gritam, mas ninguém escuta.
Reaprender a coexistir é talvez o maior desafio deste século. Significa recuperar a ética do encontro, a delicadeza do diálogo, a coragem da partilha. Exige desacelerar o eu para permitir que o outro exista. A empatia, nesse sentido, é um gesto político e espiritual: ela desarma o narcisismo e restabelece o sentido do comum.
O individualismo, quando elevado à norma social, gera uma espécie de analfabetismo emocional. Tornamo-nos incapazes de ler o outro, de decifrar a dor alheia, de nos comover com o que não nos diz respeito diretamente. É uma cegueira afetiva que empobrece o humano. Sem o outro, o eu se torna espelho opaco, imagem sem profundidade.
Talvez a tarefa mais urgente de nosso tempo seja desaprender o culto do eu e reaprender o verbo nós. Recuperar a noção de que existir é coexistir. Que a solidão pode ser abrigo, mas nunca morada. Que a liberdade não está em romper vínculos, mas em construí-los com consciência.
Porque, no fim, o individualismo é apenas a forma mais sofisticada de medo — medo de precisar, de sentir, de ser tocado. E talvez a verdadeira revolução não seja a afirmação do eu, mas a redescoberta do outro. É no espaço entre duas presenças que o humano se completa. É ali, no intervalo do encontro, que o silêncio se transforma em comunhão — e a solidão, em gesto de humanidade.
