Num mundo que aprendeu a reagir, mas desaprendeu a sentir, a compaixão é o último ato de coragem.

Por Silver D’Madriaga Marraz
Vivemos em uma era de reações automáticas. Tudo se responde, tudo se comenta, tudo se julga — mas quase nada se compreende. A velocidade com que vivemos transformou o sentir em obstáculo, e a empatia em luxo. O tempo do algoritmo não comporta pausas para a escuta; a dor alheia precisa caber em legendas curtas, e o sofrimento coletivo deve ser traduzido em campanhas passageiras. É nesse cenário de exaustão emocional e saturação moral que a compaixão se torna um ato revolucionário.
A compaixão, diferentemente da piedade, não é gesto de superioridade, mas de presença. É olhar para o outro sem o filtro da utilidade ou da comparação. É reconhecer na dor do outro a própria vulnerabilidade. E justamente por isso, tornou-se subversiva: ela exige tempo, entrega e silêncio — três dimensões que a modernidade aprendeu a rejeitar.
O mundo contemporâneo cultua a eficiência, a opinião e a performance. Tudo o que não produz retorno visível é descartado. Nesse contexto, a compaixão é um gesto improdutivo — e, por isso mesmo, insuportável para a lógica dominante. Ela não serve para o mercado, não rende curtidas, não monetiza a emoção. A compaixão resiste porque não pode ser vendida.
Vivemos o que se poderia chamar de “economia da indiferença”. Aprendemos a nos proteger da dor como quem fecha um aplicativo. Criamos filtros emocionais que nos impedem de sentir o outro de verdade, como se o sofrimento fosse contagioso. Mas o preço dessa proteção é a solidão coletiva.
Ao evitar a dor do outro, tornamo-nos incapazes de reconhecer a própria.
A compaixão não nasce de discursos, nasce do encontro. Ela se constrói nos gestos miúdos, nas escutas longas, nas presenças que não pedem aplauso. E nestes tempos de histeria moral, ter compaixão é recusar o espetáculo da virtude — é sentir sem precisar exibir o sentir. É amar sem fazer disso uma bandeira.
Já a ausência de compaixão explica, em parte, a normalização do sofrimento social. A fome virou estatística, o racismo virou debate, a miséria virou pauta, mas nada disso virou transformação. O problema não é a falta de informação, mas a falta de vínculo. Sabemos de tudo, mas não nos tocamos por nada. E enquanto a injustiça for apenas um tema e não uma ferida compartilhada, ela continuará vencendo.
Ser compassivo é um ato político no sentido mais radical da palavra: é afirmar a humanidade como princípio antes de qualquer ideologia. A compaixão dissolve fronteiras porque ela não se interessa por lados, mas por vidas. Ela não exige concordância, apenas reconhecimento. É o oposto do ódio — não porque o neutraliza, mas porque o desarma.
Entretanto, é preciso coragem para ser compassivo. Coragem para se deixar afetar num tempo em que o desapego é vendido como sabedoria. Coragem para sustentar o olhar sobre o sofrimento quando todos desviam os olhos. Coragem para permanecer sensível quando a insensibilidade é a norma de sobrevivência.
A compaixão é, portanto, a revolução mais discreta e mais urgente de nosso tempo. Não nasce nas ruas, mas nos silêncios compartilhados; não se organiza em partidos, mas em gestos. Ela não promete mudar o mundo — apenas impede que ele se desumanize por completo. Porque, no fim, todo sistema opressor depende de uma única coisa para se manter: a indiferença. E todo ato de compaixão, por menor que pareça, é uma fissura nessa estrutura. É a lembrança de que ainda somos capazes de sentir, mesmo quando o mundo nos ensina a não sentir mais.
A revolução que virá — se vier — não começará com gritos, mas com escuta. E talvez seja isso que o século ainda não entendeu: que o gesto mais transformador não é o de quem fala mais alto, mas o de quem permanece com o outro em silêncio.
