Nada revela mais sobre a vida do que a forma como se foge da morte
Por Silver D’Madriaga Marraz
Vivemos em uma época que nega o fim. A morte, que por séculos foi uma presença íntima — parte do ciclo natural, companheira silenciosa do tempo —, tornou-se agora um escândalo. Um erro do qual tentamos nos esconder com filtros, promessas de longevidade e ilusões de controle. O século XXI transformou a finitude em tabu, como se o simples ato de morrer fosse uma falha pessoal.
A indústria da juventude, os algoritmos da imortalidade e o culto da aparência trabalham juntos na mesma lógica: a de apagar qualquer lembrança de que somos passageiros. Vive-se como quem tenta apagar rastros, e não como quem se prepara para deixar sentido. Tudo o que é efêmero é recoberto de verniz; tudo o que é humano é disfarçado de atualização.
Mas o que perdemos quando retiramos a morte da conversa? Perdemos, sobretudo, a dimensão da profundidade. Sem a consciência do fim, a vida se torna uma sucessão de urgências — uma maratona sem meta. Ao fugir da morte, fugimos também daquilo que nos tornaria inteiros: a percepção de que o tempo é um privilégio e não uma garantia.
As sociedades antigas dialogavam com a morte com uma sabedoria que esquecemos. Os rituais fúnebres eram, antes de tudo, um exercício de reconhecimento: lembrar o finito era lembrar o sagrado. Hoje, em vez disso, anestesiamos o luto. Transformamos a ausência em silêncio apressado, o choro em constrangimento, o velório em cerimônia de despedida rápida. Queremos voltar logo à normalidade — como se a normalidade fosse possível sem o confronto com a perda.
Vivemos cercados por mortes simbólicas que se repetem todos os dias: a morte das relações, da escuta, da empatia, da verdade. Mas não as percebemos, porque também aprendemos a não sentir. A modernidade nos ensinou a continuar, mesmo que o que continua já não tenha sentido. Assim, a morte deixou de ser o fim e se tornou uma interrupção inconveniente.
A fuga do fim é também uma fuga da responsabilidade, pois quem ignora a morte ignora o peso da própria passagem. Não se trata de desejar o fim, mas de compreender o que ele revela: que cada gesto, cada palavra, cada encontro é irrepetível. A morte nos lembra o que o tempo tenta apagar — que a existência é um empréstimo, e o sentido que dela tiramos é a única herança que deixamos.
Talvez por isso a sociedade contemporânea prefira zombar da morte. Criamos memes sobre ela, piadas, conteúdos virais. Transformamos o medo em humor para não encará-lo. Mas essa zombaria é também uma forma de desespero: rir do inescapável é a tentativa mais humana de resistir ao que não se pode vencer.
A morte, em sua simplicidade brutal, é a única verdade que o espetáculo não consegue capturar.
Ela é o ponto em que a imagem cessa, em que o discurso se desfaz e o corpo volta a ser matéria.
E é justamente aí que reside sua força — porque, diante dela, toda a encenação se revela farsa.
O poder, o status, a juventude, o controle — tudo se curva diante daquilo que não pode ser negociado.
Encarar a morte não é desistir da vida. É, ao contrário, escolher vivê-la com lucidez. É compreender que existir não é acumular, mas significar; que amar é aceitar o risco da perda; que envelhecer é um privilégio negado a muitos. É perceber que cada despedida ensina um modo de permanecer.
Recuperar a presença da morte no pensamento coletivo é um gesto de resistência contra a superficialidade. É afirmar que há algo mais profundo do que o espetáculo, mais verdadeiro do que a imagem, mais humano do que a permanência artificial. A morte não nos rouba — ela devolve ao tempo aquilo que ele emprestou.
E talvez o grande paradoxo contemporâneo seja este: quanto mais tentamos prolongar a vida, menos aprendemos a vivê-la. Porque só quem reconhece o fim é capaz de começar de verdade.
