Quanto mais o mundo se exibe, menos ele se sente.

Por Silver D’Madriaga Marraz
Vivemos em um tempo em que a realidade precisa de plateia para existir.
As experiências, os sentimentos, até mesmo as tragédias, só parecem reais quando ganham curtidas, visualizações ou comentários. O mundo tornou-se um grande palco, e todos nós, atores e espectadores de uma encenação contínua — o espetáculo da vida pública que esvazia o sentido da vida interior.
O pensador francês Guy Debord, ainda nos anos 1960, já descrevia o fenômeno: o espetáculo não é apenas uma coleção de imagens, mas uma relação social mediada por elas. Hoje, essa previsão se materializou nas telas que carregamos no bolso. O que antes era metáfora virou cotidiano.
Vivemos em função da visibilidade — e o preço disso tem sido a erosão silenciosa da empatia.
A exposição constante transformou o sofrimento em conteúdo. Tragédias se tornaram eventos compartilháveis, e a dor, matéria de engajamento. Assistimos à violência, à fome, às catástrofes, aos dramas humanos, tudo mediado por filtros, legendas e reações. A dor alheia deixou de gerar comoção para gerar curiosidade.
A cada rolagem de tela, o que antes provocava choque passa a ser apenas mais uma imagem na sequência infinita de informações.
Essa superexposição da vida humana produziu um paradoxo cruel: nunca fomos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão emocionalmente distantes.
A empatia exige tempo, escuta e silêncio — três coisas que o espetáculo digital aboliu. No ritmo frenético da visibilidade, não há espaço para sentir; há apenas espaço para reagir.
Curte-se o sofrimento, comenta-se a dor, compartilha-se a indignação — mas tudo evapora na velocidade do próximo conteúdo.
O espetáculo também afetou a política, que se transformou em performance.
A disputa de ideias cedeu lugar à disputa por atenção. O gesto substituiu o argumento, o discurso substituiu o compromisso, e a imagem passou a valer mais do que o projeto.
A figura pública, para existir, precisa ser antes de tudo uma narrativa vendável.
A verdade, nesse contexto, deixou de importar — o que importa é o impacto.
A consequência é uma sociedade que reage, mas não reflete; que observa, mas não se envolve.
O espetáculo anestesia: quanto mais assistimos, menos agimos. A empatia, que nasce do reconhecimento do outro como semelhante, é substituída por uma curiosidade superficial, que consome a dor sem se comprometer com a transformação.
Recuperar a empatia, portanto, é um ato de resistência.
Significa olhar para além das telas e reconhecer que o mundo não é apenas o que aparece, mas o que permanece fora de quadro.
É compreender que a vida não precisa ser exibida para ter valor — e que o humano só se preserva quando consegue, ainda, se comover.
Desligar a câmera, por vezes, é o gesto mais revolucionário que podemos fazer.
Porque enquanto transformarmos tudo em espetáculo, inclusive a dor, a humanidade continuará sendo apenas mais uma imagem em alta definição — porém, cada vez mais vazia por dentro.
