Um povo que esquece suas raízes cava o próprio desaparecimento.

Por Silver D’Madriaga Marraz
Lembrar é resistir.
Em tempos de aceleração e esquecimento, a memória se tornou um ato político. Vivemos em uma sociedade que idolatra o novo — novas tecnologias, novas narrativas, novos discursos — e despreza tudo o que parece velho, lento ou incômodo. Nesse culto ao imediato, o passado é descartado como um arquivo obsoleto, e o esquecimento se confunde com progresso. Mas toda vez que apagamos o que fomos, perdemos o chão que sustenta o que somos.
A ancestralidade é o vínculo invisível entre gerações. Ela nos lembra que o presente é uma continuidade, não um rompimento. Cada gesto, cada palavra, cada corpo carrega uma história que o antecede. Ignorar isso é transformar a vida em superfície, sem profundidade nem sentido.
No entanto, a cultura dominante insiste em romper com essa linhagem.
O resultado é uma sociedade que vive de imediato em imediato, sem tempo para compreender de onde veio — e, portanto, sem clareza sobre para onde vai.
No Brasil, esse esquecimento é mais do que distração; é projeto.
O país foi construído sobre apagamentos: o genocídio indígena, a escravidão, a negação das culturas negras e populares, a destruição das memórias coletivas das periferias.
A narrativa oficial sempre exaltou o mito da harmonia racial e da mistura cultural, mas fez isso enquanto apagava as vozes que foram silenciadas.
Esse esquecimento imposto é, em si, uma forma de violência — uma tentativa de romper os elos de continuidade que poderiam fortalecer o senso de pertencimento e identidade.
Resgatar a ancestralidade, portanto, é um gesto de reconstrução.
É afirmar que a história não é linear, que o tempo não se mede apenas em datas, mas em memórias.
É compreender que nossas práticas culturais, nossas linguagens e nossas formas de existir carregam marcas de quem veio antes.
E é justamente nelas que reside a força da resistência: quando comunidades reafirmam seus modos de viver, celebrar, dançar e criar, estão dizendo ao mundo que não se deixaram apagar.
A memória é uma forma de soberania.
Ela devolve voz ao que foi silenciado e corpo ao que tentaram tornar invisível.
Ao lembrar, reatamos vínculos — com a terra, com os antepassados, com as histórias que nos compõem.
O esquecimento, por outro lado, nos torna mais fáceis de dominar: quem não sabe de onde veio, aceita qualquer destino que lhe é imposto.
Preservar a memória e cultivar a ancestralidade, portanto, não é apenas um gesto cultural, mas também político.
É recusar a lógica da pressa e do consumo que transforma tudo — inclusive as pessoas — em descartável.
É recuperar o tempo da escuta, do pertencimento e da continuidade.
Porque a resistência mais profunda não está apenas nas ruas ou nas palavras de ordem, mas na capacidade de um povo manter viva a lembrança de quem é, mesmo quando tudo ao redor tenta fazê-lo esquecer.
Em um mundo que apaga rastros, lembrar é o mais radical dos atos.
