Corremos tanto para não ficar para trás que esquecemos de onde estamos indo.
Por Silver D’Madriaga Marraz
Vivemos na era da exaustão disfarçada de sucesso. Nunca se trabalhou tanto, se correu tanto, se buscou tanto “fazer mais em menos tempo” – e, paradoxalmente, nunca se sentiu tanto vazio, cansaço e desorientação. A sociedade contemporânea transformou a produtividade em valor moral, e o descanso em culpa. Estar cansado virou sinal de virtude. O ócio, sinônimo de fracasso.
Nas últimas décadas, a cultura do desempenho substituiu a ética do bem-estar. Trabalhar não é mais apenas sustento; é identidade. “Ser alguém na vida” passou a significar “ser produtivo o tempo todo”. As redes sociais amplificaram essa lógica ao premiar a performance: quem mostra que está sempre ativo, criativo e motivado conquista aplausos digitais. O sucesso virou espetáculo e o fracasso, vergonha pública.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han já alertava: vivemos na “sociedade do cansaço”, onde a exploração não vem mais de fora, mas de dentro. Não há mais patrões visíveis – somos nós mesmos que nos cobramos, nos punimos e nos exaurimos em nome de uma produtividade infinita. A antiga obediência deu lugar ao autoaperfeiçoamento compulsório. O sujeito contemporâneo é ao mesmo tempo o patrão e o escravo de si mesmo.
O resultado é um colapso silencioso. A ansiedade, a depressão e as síndromes de burnout deixaram de ser casos isolados e tornaram-se sintomas coletivos de um modelo que exige energia infinita de corpos finitos. O corpo humano, limitado por natureza, está sendo forçado a operar como uma máquina – e o paradoxo é que, ao tentar imitar a eficiência das máquinas, estamos perdendo o que nos faz humanos: a capacidade de sentir, de parar, de contemplar.
Há algo perverso na forma como a produtividade foi naturalizada como virtude. Em nome dela, aceitamos jornadas intermináveis, precarização disfarçada de “autonomia”, e uma conectividade que nos mantém permanentemente disponíveis. O e-mail fora do expediente, o grupo do trabalho no celular, o “freela” que ocupa o tempo de lazer – tudo se mistura, até que o descanso se torna um luxo reservado a poucos.
E o capitalismo emocional encontrou seu combustível: o medo de ser irrelevante. Não basta trabalhar – é preciso mostrar que se trabalha. A lógica do “postar conquistas” e “vender esforço” alimenta um ciclo de comparação e insuficiência. Sempre há alguém mais rápido, mais criativo, mais produtivo. O descanso virou uma ameaça à nossa posição na corrida invisível que todos fingem vencer.
A solução não está em negar o trabalho ou o progresso, mas em redefinir o que significa produzir. Talvez produtividade não seja fazer mais, mas fazer com sentido. Não é multiplicar tarefas, mas qualificar tempo. O descanso não é uma pausa da vida – é parte dela. Nenhuma sociedade pode ser saudável se trata o repouso como pecado e o cansaço como medalha.
A urgência de hoje não é produzir mais, mas reaprender a respirar. Reconhecer o limite, resgatar o silêncio, lembrar que o valor de um ser humano não está na quantidade de tarefas que realiza, mas na profundidade do que vive. Porque, no fim, de nada adianta chegar primeiro se o caminho nos consome antes da chegada.
