Quando o medo toma o lugar da esperança, o conservadorismo deixa de ser ideologia — e se torna refúgio.
Por Silver D’Madriaga Marraz
O século XXI trouxe consigo uma reviravolta política inesperada: o retorno vigoroso das direitas em diversas partes do mundo. Movimentos que pareciam superados após a Guerra Fria ressurgem com nova roupagem, articulando valores tradicionais a discursos de modernidade, nacionalismo e resistência cultural. De Washington a Brasília, de Budapeste a Roma, a ascensão de lideranças conservadoras revela não apenas uma mudança de poder, mas uma mudança de humor social.
A chamada “nova direita” não é um bloco homogêneo, mas um mosaico de agendas que se cruzam. Ela reúne desde liberais econômicos e moralistas religiosos até populistas autoritários e tecnocratas ultramodernos. Seu denominador comum é o ressentimento em relação à elite política tradicional e a promessa de devolver ao “povo” o poder supostamente usurpado por instituições, minorias e intelectuais. É uma política que se alimenta da indignação e se comunica por meio da emoção.
No Brasil, esse movimento encontrou terreno fértil em meio à descrença nas instituições e à saturação do discurso progressista. O colapso de confiança na classe política, somado à expansão das redes sociais, deu origem a uma nova forma de militância: descentralizada, agressiva e profundamente simbólica. O conservadorismo brasileiro, que antes se escondia atrás de discursos discretos, assumiu uma estética própria — com influenciadores, canais de opinião e líderes carismáticos que transformaram o embate ideológico em espetáculo midiático.
Essa nova direita global não é apenas uma reação ao “politicamente correto”, mas um projeto cultural de longo alcance. Ela busca redefinir o sentido de nação, moralidade e autoridade. Em vez de se apoiar apenas em partidos, utiliza plataformas digitais para mobilizar afetos e criar pertencimento. O que antes dependia de ideologias formais agora se constrói com narrativas curtas, símbolos e memes. É a política da simplificação, em que a emoção vence o argumento e o discurso substitui o pensamento.
Ao mesmo tempo, esse fenômeno expõe a crise da própria esquerda, que em muitos contextos se afastou das bases populares e se confinou à retórica acadêmica e institucional. O avanço conservador revela o vazio deixado por projetos progressistas incapazes de oferecer sentido, identidade e segurança a uma população marcada pela incerteza econômica e pelo medo do futuro.
A nova direita, portanto, é sintoma de algo mais profundo: o mal-estar de uma era em que as promessas da globalização — prosperidade, estabilidade e igualdade — não se cumpriram. O ressentimento social tornou-se o combustível de uma política que fala menos de economia e mais de pertencimento. É a política do “nós contra eles”, onde a verdade cede lugar à convicção.
O desafio das democracias contemporâneas será compreender que o avanço desses movimentos não se combate apenas com críticas morais ou intelectuais. É preciso oferecer alternativas concretas, empatia social e novos modos de reconectar o cidadão à vida pública. A política não pode continuar sendo um campo de guerra permanente entre extremos — precisa voltar a ser o espaço do diálogo possível.
A nova direita é, em última instância, o espelho de uma sociedade que se sente perdida e busca abrigo. Entender esse movimento é entender o medo, a solidão e o cansaço de uma época. Pois toda onda conservadora nasce, no fundo, do mesmo impulso humano: o desejo de segurança em tempos de incerteza.
