A mentira sempre existiu; o que muda é a velocidade com que ela agora encontra quem queira acreditar nela.
Por Silver D’Madriaga Marraz
Vivemos uma era em que a informação se tornou abundante — e, paradoxalmente, a verdade, cada vez mais rara. O que antes dependia de jornais, rádios e televisões hoje se espalha em segundos por redes sociais, grupos de mensagens e plataformas digitais. Essa democratização do acesso à comunicação, que prometia liberdade e pluralidade, acabou abrindo espaço para um fenômeno que ameaça a própria estrutura da democracia: a desinformação organizada.
As chamadas fake news deixaram de ser simples boatos. Elas se transformaram em instrumentos políticos de manipulação emocional e controle narrativo. São produzidas com precisão cirúrgica, dirigidas a públicos específicos e moldadas para reforçar crenças preexistentes. O resultado é um eleitorado polarizado, que não busca mais compreender o mundo, mas confirmar o que já pensa sobre ele. A verdade, nesse cenário, perde o valor objetivo e se torna questão de fé.
Com a chegada da inteligência artificial, esse quadro ganha dimensões ainda mais complexas. Ferramentas de geração de texto, imagem e voz — capazes de criar discursos, rostos e falas inexistentes — tornam o falso indistinguível do real. O deepfake, por exemplo, pode colocar palavras na boca de um candidato que jamais as disse; uma imagem gerada por IA pode simular uma cena política que nunca aconteceu. A manipulação, antes artesanal, tornou-se automatizada, escalável e invisível.
O impacto disso nas eleições é devastador. Quando a confiança pública na informação se dissolve, o processo democrático se enfraquece. O voto consciente depende do acesso à verdade — e, sem ela, o cidadão decide às cegas, orientado por emoções e medos fabricados. A manipulação algorítmica não apenas distorce o debate político, mas redefine o próprio conceito de liberdade de escolha.
No entanto, a inteligência artificial também pode ser parte da solução. As mesmas tecnologias capazes de criar desinformação podem, se bem utilizadas, combatê-la: sistemas de verificação automatizada, rastreamento de origem e análise de padrões podem identificar conteúdos falsos antes que se tornem virais. O desafio não está na tecnologia em si, mas em quem a controla e com quais propósitos.
A resposta, portanto, precisa ser coletiva. Educação digital, transparência algorítmica e regulação responsável são passos essenciais. É preciso ensinar o cidadão a desconfiar, a checar, a questionar — não por paranoia, mas por consciência crítica. Em uma sociedade hiperconectada, a alfabetização informacional é tão importante quanto aprender a ler e escrever.
A inteligência artificial, em si, não é inimiga da democracia. O perigo está em delegarmos a ela o poder de decidir o que é real. A verdade continuará sendo um ato humano — de escolha, responsabilidade e ética. O desafio do nosso tempo é não permitir que a tecnologia, em nome da eficiência, nos roube o direito de pensar.
