O empreendedorismo no Brasil é como uma semente teimosa plantada em solo árido. Ela luta, resiste, busca crescer, mas esbarra em uma terra que, ao invés de nutrir, dificulta. No cenário das startups e empresas de tecnologia, esse desafio é ainda maior em regiões que sofrem com a falta de infraestrutura adequada, como o Norte e o Nordeste do país. O sonho de transformar ideias em negócios rentáveis é comprometido pela ausência de condições mínimas, como conectividade e inovação. O Brasil, o gigante pretendido inovador, ainda patina quando se trata de oferecer igualdade de oportunidades para o empreendedor que está longe dos grandes centros urbanos.

A conectividade de alta qualidade, uma necessidade fundamental no mundo moderno, é um luxo em muitas regiões do país. Dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostram que, em 2023, 39% dos domicílios brasileiros ainda não tinham acesso à internet de banda larga. Isso em um cenário onde o digital é o eixo de inovação, de negócios, e de transformação social. Como alguém que vive em áreas periféricas pode competir com startups de São Paulo ou Rio de Janeiro se sequer consegue garantir uma conexão estável? O empreendedor dessas regiões não luta apenas contra a concorrência, mas contra uma estrutura que o empurra para trás a cada tentativa de avançar.

Os parques tecnológicos, fundamentais para o desenvolvimento de um ecossistema inovador, também estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, apenas 7% dos parques tecnológicos estão localizados nas regiões Norte e Nordeste. Essas áreas, ricas em potencial humano e criativo, acabam sendo deixadas de lado pela falta de investimentos. E o que o governo faz? Distribui promessas vagas e um ou outro projeto isolado que mal arranha a superfície do problema.

O Brasil, um país com dimensões continentais, deveria ser exemplo de descentralização da inovação. Mas o que vemos é uma dependência crônica de iniciativas focadas nos grandes polos, deixando à mercê o talento que brota nas regiões mais distantes. Isso não é só uma falha de governança, mas um desperdício de potencial que poderia impulsionar o país em termos de competitividade global. Quando não se investe em infraestrutura, inovação e conectividade, se condena boa parte do Brasil a uma eterna dependência dos grandes centros.

No entanto, nem tudo é desolador. Há caminhos, soluções, e oportunidades para mudar esse cenário. Em países como a Índia, por exemplo, o governo investiu fortemente em infraestrutura digital para áreas remotas, permitindo que o empreendedorismo tecnológico florescesse mesmo em regiões isoladas. Aqui, iniciativas como o Programa Amazônia Conectada, que visa levar fibra ótica para o interior da Amazônia, são passos importantes, mas ainda tímidos frente à imensidão das demandas. E falta planejamento estratégico e fiscalização de resultados. Não basta inaugurar projetos se eles não chegam às mãos de quem realmente precisa.

O Brasil precisa de uma política pública que entenda a urgência da inclusão digital. Um estudo de 2022 da Fundação Getúlio Vargas indicou que empresas situadas fora dos grandes centros urbanos têm 30% menos chances de crescer em comparação às localizadas em regiões com infraestrutura adequada. Isso precisa mudar. A internet não é mais um luxo, é uma necessidade. E o governo, que segue paralisado em debates ineficazes, deve acordar para essa realidade.

Além da conectividade, a criação de incentivos fiscais para empresas que se instalem em áreas de baixa infraestrutura poderia transformar o cenário. A expansão de parques tecnológicos nessas regiões também se mostra vital. O talento está espalhado por todo o Brasil, mas, sem condições mínimas, ele permanece subaproveitado.

O caminho para o empreendedorismo inclusivo passa por decisões estratégicas e corajosas. O governo precisa enxergar o Brasil na totalidade, não apenas como suas partes mais desenvolvidas. A infraestrutura deve ser uma prioridade nacional, assim como a formação de redes de apoio que permitam que a inovação floresça em qualquer canto do país. Afinal, o Brasil que queremos é aquele onde as oportunidades são iguais, onde o empreendedor do sertão tem as mesmas condições de sucesso que aquele da Avenida Paulista.

Em um país que gosta de se ver como uma potência emergente, é inconcebível que grande parte de sua população ainda seja marginalizada quando se trata de inovação e empreendedorismo. O governo precisa sair do discurso e agir. A conectividade de qualidade, a expansão de parques tecnológicos e os incentivos ao empreendedorismo fora dos grandes centros são apenas o começo. O futuro do Brasil não pode ser construído em pedaços; ele precisa ser integral, inclusivo e, acima de tudo, baseado na capacidade de todos os brasileiros de transformar suas ideias em realidade.

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