O Protagonismo da Mulher Preta Entre os Movimentos Feminino e Negro

Quando Kimberlé Crenshaw cunhou o termo “interseccionalidade” em 1989, muitas mulheres negras brasileiras já trilhavam um caminho de lutas desde os anos 1970 e 1980. Nesse período, surgiu um movimento autônomo, marcado pela dupla militância junto a coletivos de mulheres e negros, que se reergueram na década de 1970.

Empoderamento além das Barreiras: Uma História Pioneira

Apesar de compartilharem objetivos, os movimentos de mulheres e negros da época institucionalizaram-se com uma visão essencialista de igualdade. A ênfase nas desigualdades de classe, relegando a segundo plano as de gênero e raça, resultou em formas de opressão internas, desfavorecendo as mulheres negras em seu interior.

Mulheres como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro e outras visionárias desempenharam um papel fundamental nessa fase. Essa tradição intelectual, aliada à dupla militância, contribuiu para a construção do pensamento e da prática feminista negra no Brasil.

O Surgimento do Movimento de Mulheres Negras: Uma Virada nos Anos 1980

Em 1975, durante o Congresso de Mulheres Brasileiras, Lélia Gonzalez e suas companheiras apresentaram o Manifesto das Mulheres Negras, marcando a insurgência contra o “feminismo branco hegemônico”. Nos anos seguintes, diversos grupos de mulheres negras foram fundados, como Aqualtune, Nzinga, Mãe Andresa, Mulheres Negras do Espírito Santo, Maria Mulher e Geledés.

A década de 1980 viu o movimento de mulheres negras ganhar autonomia, questionando a invisibilidade de suas pautas nos movimentos feminista e negro. O III Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, em 1985, foi um marco, evidenciando a necessidade de um movimento independente.

Lélia Gonzalez: Uma Vanguardista à Frente de seu Tempo

Lélia Gonzalez em Dacar (Senegal), em 1979 Crédito: Acervo pessoa

Lélia Gonzalez, figura primordial, criticava tanto o movimento negro quanto o feminista, destacando a importância da autonomia das organizações de mulheres negras. Ela antecipava debates interseccionais, enfatizando as múltiplas formas de opressão enfrentadas pelas mulheres.

O I Encontro Nacional de Mulheres Negras, realizado em 1988, foi um divisor de águas, reunindo mulheres de 17 estados para discutir temas cruciais. A partir desse momento, o movimento ganhou força e se consolidou como um espaço vital para a luta das mulheres negras.

Nzinga Informativo: A Voz Resoluta do Coletivo

O Nzinga Informativo, criado pelo coletivo homônimo carioca, circulou de 1985 a 1989. Seu objetivo era desafiar a divisão sexual do trabalho, denunciando as condições desfavoráveis enfrentadas pelas mulheres negras em empregos mal remunerados.

Legado e Continuidade

O movimento de mulheres negras, que iniciou nos anos 1970 e 1980, deixou um legado significativo. Hoje, suas conquistas e desafios continuam a ressoar no debate interseccional, moldando a narrativa das mulheres negras na sociedade brasileira. A luta pela igualdade e o reconhecimento da singularidade das experiências das mulheres negras persistem como pilares dessa jornada inovadora e inspiradora.

Se nos anos 1970-1980 o movimento de mulheres negras emergiu como resposta à invisibilidade de suas pautas, hoje ele representa uma força poderosa, construindo caminhos para uma sociedade mais inclusiva e justa. Fica o legado de mulheres pioneiras que desafiaram as coisas como são, pavimentando o caminho para as gerações futuras.

Por Ana Soáres

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Ana Soáres é professora, pedagoga, jornalista, editora-chefe e fundadora-presidente da Revista Pàhnorama. Com mais de 25 anos de atuação na imprensa, construiu uma trajetória marcada pelo jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, a diversidade e os direitos humanos. Atua nas áreas de política, cultura e sociedade. É referência em narrativas que dão voz a quem historicamente foi silenciado, unindo rigor jornalístico, sensibilidade social e visão estratégica de comunicação.

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