Durante décadas, a violência contra a mulher foi compreendida quase exclusivamente a partir de seus sinais mais visíveis, o corpo ferido, o hematoma, a prova concreta que cabe em uma fotografia. O Brasil avançou ao reconhecer outras formas de agressão, mas ainda caminha lentamente quando o assunto é aquilo que não se vê: a violência emocional. É nesse território difuso, muitas vezes desacreditado, que se desenrolam histórias como a exposta recentemente pela artista Quitéria Chagas ao relatar o relacionamento com o empresário Sérgio Pitta.

O que Quitéria torna público não é apenas um episódio íntimo. É a descrição de um padrão. Um roteiro recorrente que especialistas identificam como ciclo de manipulação afetiva: aproximação intensa, validação estratégica, promessa de construção conjunta e, em seguida, a corrosão progressiva da autoestima da parceira por meio de atitudes instáveis, desrespeitosas e emocionalmente violentas. O fenômeno, popularizado sob o termo love bombing, não é novo, apenas ganhou nome. Sua prática, no entanto, permanece naturalizada em relações onde o afeto se confunde com poder.

Ao longo do relato, emerge uma figura masculina marcada por comportamentos compulsivos, instabilidade emocional e incapacidade de sustentar vínculos consistentes. Não se trata, como frequentemente se tenta reduzir, de uma incompatibilidade de casal. Trata-se de uma dinâmica assimétrica, em que uma das partes se alimenta da admiração, da exposição e do valor simbólico da outra, ao mesmo tempo em que a fragiliza no plano privado. É uma forma de violência que opera sem escândalo, mas com método.

A legislação brasileira já reconhece essa forma de agressão. A Lei nº 14.188/2021, ao tipificar a violência psicológica contra a mulher, ampliou o alcance da Lei Maria da Penha ao incluir condutas que causam dano emocional, diminuição da autoestima, controle e manipulação. No plano jurídico, trata-se de um avanço relevante. No plano prático, contudo, a aplicação ainda enfrenta obstáculos evidentes. A violência emocional não deixa vestígios imediatos e depende, em grande medida, da credibilidade da palavra da vítima, elemento que, historicamente, ainda é colocado sob suspeita.

É nesse ponto que o caso ganha dimensão pública. Ao expor a relação, Quitéria antecipa uma reação previsível: a tentativa de desqualificação de sua narrativa. Mulheres que denunciam abusos emocionais raramente encontram acolhimento imediato. São, com frequência, classificadas como exageradas, ressentidas ou instáveis. A estratégia não é casual; ela integra o próprio mecanismo de manutenção do abuso, deslocando o foco da conduta do agressor para a suposta fragilidade da vítima.

Há também um componente social que merece atenção. Homens que transitam em ambientes de prestígio, que constroem uma imagem pública de sucesso e respeitabilidade, tendem a ser protegidos por essa mesma estrutura simbólica. A violência, quando ocorre, é relativizada como um desvio pontual, um problema privado ou, no limite, uma versão mal contada. O que o relato de Quitéria evidencia é o descompasso entre a persona pública e a prática íntima — um abismo que não é incomum, mas raramente é exposto.

Ao afirmar que não aceita esse tipo de tratamento e que reconhece o próprio valor, Quitéria desloca o eixo da narrativa. Não se trata de vingança ou exposição gratuita, como apressadamente se costuma rotular. Trata-se de delimitação. De recusa. De uma afirmação que, embora individual, ecoa coletivamente: a de que não é mais admissível que mulheres sustentem relações às custas da própria saúde emocional.

Esse movimento encontra respaldo em uma transformação mais ampla. Cresce, ainda que de forma desigual, a consciência sobre responsabilidade afetiva, limites e padrões abusivos. Termos antes restritos ao campo acadêmico ou clínico passam a integrar o vocabulário cotidiano, permitindo que experiências difusas sejam nomeadas, e, portanto, enfrentadas. Nomear é um ato político. E, no caso da violência emocional, é também um passo decisivo para romper o ciclo.

Isso não significa que o caminho esteja consolidado. A naturalização da manipulação afetiva, a romantização da instabilidade masculina e a expectativa histórica de tolerância feminina ainda operam como forças de contenção. Há uma resistência cultural em reconhecer que o desrespeito pode existir sem gritos, sem agressão física, sem espetáculo. Justamente por isso, ele se perpetua.

O que casos como este revelam, com clareza incômoda, é que a violência emocional não é exceção. É estrutura. E, enquanto for tratada como um problema menor, continuará produzindo danos profundos, silenciosos e duradouros.

Ao tornar pública sua experiência, Quitéria Chagas não inaugura esse debate, mas o tensiona em um ponto sensível: o da visibilidade. Porque, uma vez exposta, a violência deixa de ser apenas vivida e passa a ser reconhecida. E reconhecimento, nesse contexto, é o início de qualquer possibilidade real de enfrentamento.

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Ana Paula Tergilene é professora, pedagoga, jornalista, editora-chefe e fundadora-presidente da Revista Pàhnorama. Com mais de 25 anos de atuação na imprensa, construiu uma trajetória marcada pelo jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, a diversidade e os direitos humanos. Atua nas áreas de política, cultura e sociedade. É referência em narrativas que dão voz a quem historicamente foi silenciado, unindo rigor jornalístico, sensibilidade social e visão estratégica de comunicação.

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