Nos corredores da Agrishow, em Ribeirão Preto, a cena que se repete há anos é a de agricultores circulando entre tratores e colheitadeiras reluzentes, negociando prazos e condições para renovar a frota. Mas o cenário para 2026 não parece tão otimista. A Deere & Co., líder mundial na fabricação de máquinas agrícolas, já prevê retração nas vendas no Brasil, resultado de um ambiente marcado por juros altos e incertezas no comércio global.
A estimativa preocupa. O Brasil é hoje um dos maiores mercados da companhia fora dos Estados Unidos, e a demanda por tecnologia no campo tem sido um dos motores da expansão agrícola nacional. Uma desaceleração pode afetar não apenas as fabricantes, mas também a cadeia de fornecedores, concessionárias e até o comércio em cidades do interior, que vivem da movimentação gerada pelo agronegócio.
O peso da Selic no bolso do produtor
“Um trator de R$ 800 mil que até dois anos atrás era financiado em condições razoáveis, hoje exige um esforço quase inviável para muitos médios produtores”, comenta Ricardo Azevedo, economista especializado em agronegócio.
Os financiamentos privados chegam a ultrapassar 20% ao ano, e mesmo as linhas do Plano Safra 2025/26 não são suficientes para atender a todos. Produtores menores, que já enfrentam dificuldades em acessar crédito subsidiado, estão entre os mais prejudicados.
Muitos adiam a compra de equipamentos, preferindo esticar a vida útil da frota atual. O risco, segundo analistas, é de queda de produtividade justamente em um momento de demanda crescente por alimentos e commodities.
Uma conta que não fecha
A retração nas compras atinge um setor que movimenta bilhões. De acordo com dados da Anfavea, a associação das montadoras, a venda de máquinas agrícolas caiu 7% no primeiro semestre de 2025, tendência que pode se aprofundar caso os juros não recuem no ritmo esperado.
Além da indústria, o impacto se espalha. Siderúrgicas, empresas de autopeças, transportadoras e concessionárias de máquinas podem sentir a diminuição no volume de negócios. Em muitas cidades do interior, onde cada negociação de uma colheitadeira representa milhões de reais, a retração já começa a aparecer no comércio local.
Comércio internacional adiciona incerteza
O cenário externo também não ajuda. As recentes tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros geram apreensão no setor. Embora o agro brasileiro siga competitivo, a dúvida sobre o acesso a mercados-chave afeta o planejamento de investimentos de longo prazo.
Somado ao sinal de desaceleração da economia chinesa, principal compradora de commodities brasileiras, o resultado é um produtor mais cauteloso — menos disposto a assumir financiamentos caros sem garantia de retorno.
Alternativas de financiamento: o consórcio entra em pauta
Diante de tantas barreiras, produtores rurais começam a olhar com mais atenção para formas alternativas de aquisição de máquinas, como o consórcio.
O modelo, bastante difundido no setor imobiliário e automotivo, tem ganhado espaço no agronegócio. Ele permite que produtores se organizem em grupos, adquirindo cartas de crédito para compra de tratores, colheitadeiras ou implementos agrícolas sem juros, apenas com taxa de administração diluída.
“O consórcio pode não ser a solução imediata para quem precisa da máquina amanhã, mas é uma ferramenta estratégica de planejamento”, explica Fernanda Ribeiro, consultora financeira do setor rural. “O produtor se programa, paga parcelas acessíveis e, quando contemplado, investe sem comprometer seu fluxo de caixa com juros abusivos.”
Para médios produtores, que não conseguem sempre acessar as linhas mais baratas do Plano Safra, o consórcio aparece como um caminho para garantir previsibilidade e manter o cronograma de modernização da frota.
Um novo ciclo de escolhas
A possível queda nas vendas de máquinas em 2026 é um sintoma do momento delicado da economia brasileira: juros elevados, crescimento modesto e incertezas externas. Mas também abre espaço para o debate sobre como financiar o futuro do campo.
Seja por meio de linhas públicas mais acessíveis, renegociação de dívidas ou adesão a modelos como o consórcio, o fato é que o produtor rural brasileiro terá de reinventar sua forma de investir. E, como já mostrou a história do agronegócio, resiliência e criatividade não faltam no campo.




