
O advento da internet e das redes sociais permitiu que todas as pessoas ao redor do planeta tivessem acesso a uma diversidade infinita de acontecimentos. Não me refirmo somente à vida política do Brasil e do mundo, agora esmiuçada por um time de jornalistas independentes, mas também a lamentáveis casos de preconceito explícito, brigas em locais públicos, acidentes de trânsito etc. O que mais tem me chamado atenção, no entanto, é a falta de educação e de limites de algumas crianças, que muitas vezes agem de forma inconveniente sob a anuência de pais ou responsáveis. Há exemplos revoltantes. Vamos a alguns.
Um maquiador foi chamado para atender uma senhora em domicílio. O neto dela – de 10 anos, aproximadamente – começou a achacar o rapaz com nomes pejorativos referentes à orientação sexual dele. Em suma, o capeta em forma de guri chamava o maquiador de gay, viado e por aí vai. Incomodado, o rapaz, filmando a si próprio com o celular, dirigiu-se à mãe do menino e pediu para que ela interviesse, já que os xingamentos recorrentes, além de o ofenderem, estavam atrapalhando o trabalho. A genitora disse que o profissional estava exagerando e que aquilo era coisa de criança. Ele, então, retrucou e disse que era coisa de criança mal-educada (e é mesmo). A mãe insistiu e disse que não iria mandar o filho parar porque ele era “apenas” uma criança. O maquiador, então, encerrou o atendimento, deixou o serviço pela metade e foi embora. Convém deixar claro para essa mãe que o que o filho dela fez é, de fato, coisa de criança sem educação. Se ela acha normal um garoto se referir a um homossexual de forma pejorativa e de forma insistente é porque ela, marido e demais familiares também agem da mesma forma. O garoto é um reflexo do que ele aprende em casa.
O segundo caso ocorreu no carro de um motorista de aplicativo. A mãe e a filha – uma criança de cerca de 5 anos – entraram no veículo. Sem perda detempo, a mãe pediu que o motorista desse logo a partida, pois estavam com pressa. Como a mulher ainda não havia afivelado a filha no cinto e também não havia se afivelado, o motorista disse que só daria a partida quando ambas estivessem de cinto. A mãe, então, reiterou que estava com pressa e poria o cinto quando o carro partisse. O motorista, coberto de razão, afirmou que o carro só sairia depois que os cintos estivessem afivelados. Durante essa discussão, a garota, por várias vezes, se levantou e foi mexer no espelho retrovisor do motorista, que, irritado, chamou-lhe a atenção e mandou a mãe contê-la. O que a mãe fez? Disse que ele estava exagerando, pois a filha era “apenas um bebê”. Como, se era uma menina já crescida? Bebês, para mim, são crianças de colo, e não uma que, inquieta, não parava sentada e insistia em mexer no retrovisor interno. Depois de infrutíferas tentativas e cansado de discutir, o motorista cancelou a corrida e mandou as duas descerem. A mãe, indignada, disse que daria nota zero para ele, mas quem merece um zero bem redondo é ela.
Eu também fui vítima de uma criança sem educação, mas agi rápido. Foi numa casa de lanches. Eu havia pedido um copo de mate e uma porção de pães de queijo. Eu estava no balcão; numa mesa próxima, uma menina de cerca de 8 anos e sua avó. Ela também queria pães de queijo e estava afoita. Quando chegaram a minha porção, bem como a de um rapaz ao meu lado (havíamos feito o pedido antes) a garota avançou sobre nossos pedidos, querendo pegar os pães de queijo para ela. “Anda, me dá!, disse ela ao rapaz, que não lhe deu confiança. Quando ela veio para cima de mim e disse a mesma coisa, levantei a porção bem alto com o braço (tenho 1,86m) e fuzilei a avó dela com o olhar. A senhora, que ainda não havia se dado conta da situação, chamou a neta para perto dela e a repreendeu. Mas, convenhamos, a garota já devia estar sendo estragada pelos pais, ou seja, tinha todos os caprichos prontamente atendidos.
Quando li sobre o caso da menina no carro de aplicativo, fui ler os comentários. Um deles era de uma psiquiatra especializada em atendimento infantil. Ela disse que, muitas vezes, os pais chegam ao consultório com a criança a tiracolo e dizem que ela deve ter o conhecido transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou similar, já que é impossível contê-la. Segundo a psiquiatra, uma boa conversa com os pais e principalmente com a criança é suficiente para perceber o seguinte: o menino ou menina é psiquicamente saudável, o que falta é educar e estabelecer limites. O problema, muitas vezes, é convencer os pais disso.
Marcelo Teixeira
