
O Rio, cidade tão bonita de janeiro a janeiro, possui pontos turísticos de tirar o fôlego. Todos badaladíssimos e verdadeiros cartões postais, como o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e a Praia de Copacabana. E há também aqueles que, embora não sejam necessariamente pontos de peregrinação de turistas, atraem grande contingente de pessoas não só pelo visual, mas pela magia e pela aura que possuem. São locais frequentados por gente descolada, livre e em busca de uma experiência do que seja o jeito carioca de ser. Um desses pontos é a Pedra do Arpoador.
Localizada no início da Praia de Ipanema, a Pedra do Arpoador proporciona uma vista deslumbrante de toda a orla de Ipanema, Leblon e Morro dois Irmãos ao fundo, além de um dos mais espetaculares pores-do-sol da Cidade Maravilhosa. E como a pedra se estende pelo mar, proporciona ângulos incríveis para fotos. No entanto, convém frisar, é necessário cautela, pois o mar costuma estar revolto.
Só que o local, principalmente à noite, tornou-se também famoso por ser ponto de pegação. É comum ver casais engatando um namoro mais ousado na “lua deserta das pedras do Arpoador”, como dizia o cantor e compositor Cazuza. E como a pegação propriamente dita tem sido bem mais gay do que hétero e bem mais ousada do que se imagina, a situação acabou saindo do controle. A ponto de, no réveillon de 2026, a festa por lá ter ficado tão quente que recebeu a alcunha de “Surubão do Arpoador”.
Da virada do ano em diante, entretanto, passou a ser diferente. A Prefeitura do Rio, para coibir a empolgação da rapaziada, anunciou novas regras de acesso ao “point” e limitou o acesso. A Pedra do Arpoador, por isso, está acessível das 4h às 21h e não mais ininterruptamente.
Em tese, a questão acaba aqui. Só que, vendo os comentários sobre o fato nas redes sociais, deparo com o pessoal dizendo que vai todo mundo voltar para o Aterro do Flamengo, a Quinta da Boa Vista, além de outros muitos locais que a rapaziada irá descobrir para continuar fazendo a festa que tanto lhes agrada.
Tudo isso me fez lembrar o banheiro do Terminal Rodoviários Menezes Côrtes, no Castelo, Centro do Rio de Janeiro. Como trabalhei na região por cerca de 10 anos e pegava o ônibus no local, utilizei o banheiro várias vezes e cansei de testemunhar pegações. Eram tantas e tão frequentes que, em dado momento, nem me surpreendia mais. Entrava no banheiro, fazia o que tinha de fazer e saía. A impressão que me dava é que até os funcionários não fiscalizavam mais, dada a frequência espantosa de homens se divertindo uns com os outros.
Há pouco tempo, estava pela região e precisei de um banheiro. Qual foi o meu espanto ao atestar que o W.C. do Menezes Côrtes havia sido desativado. Provavelmente, pelo mesmo motivo que levou à restrição do acesso à Pedra do Arpoador. Felizmente, fui a outro local com banheiro, mas pensei como deve estar grande o sufoco para quem está esperando um ônibus ou trabalha no local. Fazem como para ir ao banheiro? Os justos pagam pelos – vá lá – pecadores?
Esse fato não é comum só no Rio de Janeiro. Várias capitais (quiçá todas as cidades) possuem aqueles locais ermos onde homens – sejam solteiros, casados ou enrolados – se procuram para dar vazão a desejos ainda reprimidos pela sociedade.
Tudo isso mostra como os homens precisam – e muito – conversar sobre machismo, homossexualidade masculina, afetividade, hipocrisia social e afins. Enquanto isso não ocorrer, sempre haverá cantos escuros, banheiros públicos e também homens sujeitos a cair na teia de golpistas que, hoje em dia, vivem em aplicativos de encontros em buscas de presas.
Marcelo Teixeira

