Luana Piovani não ocupa mais apenas o espaço da atriz reconhecida pelo talento e pela trajetória consistente no teatro, na televisão e no cinema. Em 2026, ela se consolida como uma figura pública que transforma a própria vivência em instrumento de debate coletivo, tensionando temas que muitos preferem evitar. Sua participação no projeto Conversa de Bar, idealizado e apresentado por Pedro Henrique França, no Teatro Rival Petrobras, no último dia 26 de janeiro, expôs com clareza essa postura. A entrevista ao vivo encerrou o Festival Resistência Cultural no Rival, iniciativa incentivada pela Petrobras por meio da Lei Rouanet, e reuniu público atento a uma fala direta, sem concessões.
O projeto Conversa de Bar já recebeu nomes centrais da cultura brasileira contemporânea, como Ney Matogrosso, Leandra Leal, Camila Pitanga, Antonio Pitanga, Teresa Cristina, Clayton Nascimento, Gabriela Loram, Conceição Evaristo, Leandro Vieira, Milton Cunha e a deputada federal Erika Hilton. Todas as edições estão disponíveis no canal do Teatro Rival Petrobras no YouTube, reforçando o caráter público e acessível do debate.
Ativismo que extrapola as redes sociais
Na conversa, Luana Piovani abordou múltiplos temas, mas deixou claro que o ativismo deixou de ser acessório em sua vida. Vestindo uma camiseta com a bandeira do Brasil e a frase “não há verde sem azul”, ela chamou atenção para uma pauta ainda pouco central no debate ambiental brasileiro: a preservação dos oceanos. Ao citar regiões como os Montes Oceânicos de Fernando de Noronha, o Albardão, no Rio Grande do Sul, e a Bacia da Foz do Amazonas, a atriz reforçou alertas feitos por organizações como a SOS Oceanos sobre a fragilidade desses territórios diante da exploração econômica e da negligência institucional.
O discurso ambiental aparece, para Piovani, como uma extensão da responsabilidade cidadã. Não se trata de ativismo performático, mas de insistência. A atriz reconhece o desgaste de ocupar esse lugar, mas afirma que o silêncio, neste momento histórico, tem um custo alto demais.

Violência de gênero como urgência cotidiana
Outro eixo central da entrevista foi a violência contra mulheres. Durante o encontro, Piovani relatou ter sido procurada por uma mulher em um voo entre Rio e São Paulo que buscava ajuda para denunciar um caso de abuso sexual envolvendo um líder religioso. O episódio, segundo a atriz, escancara o peso simbólico que figuras públicas carregam em um país onde vítimas ainda encontram dificuldades para serem ouvidas.
O relato levou à menção direta de um caso que mobiliza a opinião pública. O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro agendou para janeiro de 2026 o julgamento de Paulo Roberto Silva e Souza, fundador da igreja Céu do Mar e figura conhecida do Santo Daime. Ele responde a acusações de supostas violações sexuais e violência psicológica, com relatos envolvendo dezenas de vítimas. De acordo com as investigações, o acusado teria usado sua posição de autoridade espiritual para manipular e abusar de pessoas em situação de vulnerabilidade. A juíza responsável determinou audiência presencial diante do risco de evasão.
Ao citar nominalmente a advogada que representa parte das vítimas, Piovani reforçou a necessidade de acompanhamento público do processo. A frase “chega de moer mulher” sintetizou o tom da fala e ecoou no teatro como denúncia e convocação.
Do meme ao engajamento contínuo
A trajetória da atriz nas redes sociais também foi revisitada. O episódio que originou o meme “só queria postar uma foto de biquíni”, em 2019, surgiu em um contexto de esgotamento. Naquele momento, Piovani desabafava sobre a sobrecarga de ser cidadã em um país atravessado por crises políticas, ambientais e sociais. A fala, recortada e descontextualizada, viralizou como sinal de alienação, quando, na origem, expressava justamente o contrário.
Anos depois, a atriz afirma compreender a lógica das redes e a transformação de frases em símbolos. Ainda assim, insiste que o meme revela algo mais profundo: a expectativa constante de que figuras públicas absorvam, sozinhas, a responsabilidade de responder a todos os conflitos coletivos.
A saída do Brasil e novas frentes de luta
A mudança para Portugal aparece como um ponto de inflexão. Piovani relata que a decisão foi motivada pela busca de segurança e qualidade de vida para os filhos. Viver sem medo constante, segundo ela, é uma condição mínima de dignidade. A experiência no exterior, no entanto, não significou afastamento das lutas sociais. Pelo contrário.
Ao se deparar com a ausência de uma legislação específica sobre feminicídio em Portugal, a atriz passou a dialogar com coletivos feministas locais, ampliando sua atuação para além do Brasil. A mudança geográfica abriu novas frentes de engajamento e reforçou a percepção de que a violência de gênero é um problema estrutural e global.
Crise masculina e ciclos de violência
Piovani também chamou atenção para a circulação crescente de conteúdos violentos contra mulheres nas redes sociais e para a sensação de impunidade que ainda marca muitos casos de feminicídio. Produções audiovisuais que reconstroem crimes históricos, como a série sobre Ângela Diniz, foram citadas como exemplos de uma sociedade que revisita o passado, mas ainda reluta em romper padrões.
Para a atriz, há um desequilíbrio evidente. Enquanto mulheres avançam em autonomia, consciência emocional e independência financeira, muitos homens enfrentam uma crise de identidade profunda, incapazes de lidar com a perda de privilégios historicamente naturalizados.
Maternidade sem idealização
A maternidade ocupa um lugar central em sua fala. Ao compartilhar experiências pessoais, Piovani constrói uma narrativa distante da idealização frequentemente associada à figura materna. Ela fala de exaustão, solidão e sobrecarga, especialmente na maternidade solo. A relação com a própria mãe e a ausência do pai na infância aparecem como elementos que ajudaram a compreender dores antes apenas observadas.
Essa vivência, segundo a atriz, ampliou sua empatia e aprofundou a compreensão sobre desigualdades que atravessam gerações de mulheres.
Personalidade forte como herança
Rotulada como polêmica ao longo da carreira, Piovani atribui sua postura à educação recebida. As frases repetidas pela mãe na infância, valorizando estudo, iniciativa e autoconfiança, moldaram uma personalidade que não teme recusas nem se acomoda em espaços já conquistados. No início da carreira, ainda nos anos 1990, essa postura a diferenciou em um meio marcado por disputas silenciosas e expectativas restritivas.

Amor, exigência e autonomia
Ao falar de relações amorosas, a atriz mantém a mesma franqueza. Não romantiza o amor a qualquer custo e afirma ser exigente porque se entrega intensamente. Para ela, reciprocidade não é luxo, é condição básica. A fala, direta e sem filtros, dialoga com uma geração que revisita modelos afetivos e questiona narrativas tradicionais sobre sacrifício feminino.
Retorno aos palcos e ao Carnaval
Em 2026, Piovani também reafirmou sua presença artística. Estreou um espetáculo teatral inspirado em histórias pessoais, mesclando humor, memória e crítica social. O projeto reforça sua conexão direta com o público e a disposição de transformar vivência em linguagem cênica. No Carnaval, sua participação como figura central do Império Serrano reacendeu expectativas e reafirmou sua ligação com a cultura popular.
Uma figura pública em permanente construção
Luana Piovani ocupa um espaço raro no cenário público brasileiro. Ela incomoda, provoca e insiste. Entre aplausos e controvérsias, constrói uma trajetória que recusa silêncios convenientes. Em um país que ainda reage mal a mulheres que falam alto, sua presença segue sendo um lembrete incômodo e necessário de que visibilidade também é responsabilidade.
O questionamento que fica não é sobre ela, mas sobre nós: o que fazemos com as vozes que insistem em expor aquilo que preferimos não ver?

