Morreu nesta sexta-feira (26), em Salvador, aos 98 anos, Mãe Carmem do Gantois, uma das mais respeitadas ialorixás do país e liderança central das religiões de matriz africana no Brasil. A morte ocorreu em um dia dedicado a Oxalá, orixá que a guiava espiritualmente ao longo de sua trajetória religiosa. A data ganha ainda mais força simbólica porque neste sábado, dia 27, completam-se sete anos da morte de Mãe Stella de Oxóssi, outra referência fundamental do candomblé baiano e nacional.
Mãe Carmem estava à frente do Terreiro do Gantois havia 23 anos. A casa, oficialmente chamada Ilê Iyá Omin Axé Iyamasé, é um dos mais antigos e tradicionais terreiros do Brasil, fundada em 1849, com origem iorubá e reconhecimento internacional como patrimônio histórico, cultural e religioso.
Filha mais nova de Mãe Menininha do Gantois, uma das maiores líderes religiosas do século XX, Mãe Carmem herdou não apenas o cargo, mas a responsabilidade de manter viva uma tradição marcada pela fé, pela resistência ao racismo religioso e pela preservação da cultura afro-brasileira em um país historicamente hostil às religiões de matriz africana.
Uma sucessão marcada pela responsabilidade histórica
Mãe Carmem assumiu a liderança do Gantois em 2002, após a morte de sua irmã, Mãe Cleusa, que comandava a casa desde 1986, ano da morte de Mãe Menininha. A sucessão ocorreu em um momento delicado, em que os terreiros enfrentavam crescente intolerância religiosa, disputas urbanas e a necessidade de diálogo constante com o poder público para garantir a preservação de seus espaços e rituais.
Durante mais de duas décadas à frente do Gantois, Mãe Carmem foi reconhecida por uma liderança firme, discreta e profundamente comprometida com os fundamentos do candomblé. Sua atuação se deu tanto no campo espiritual quanto no social, mantendo o terreiro como espaço de acolhimento, orientação e preservação da memória ancestral.
O significado do sete e a memória coletiva
No candomblé, o número sete tem um significado central. Ele representa a ligação entre o mundo espiritual e o mundo material e está associado às sete grandes linhas de trabalho dos orixás: Oxalá, Ogum, Xangô, Yansan, Oxum, Iemanjá e Obaluaiê, também conhecido como Omolu. A coincidência entre a morte de Mãe Carmem e a data que marca sete anos da morte de Mãe Stella reforça, para a comunidade de terreiro, a ideia de continuidade, ancestralidade e responsabilidade coletiva.
Por esse motivo, o Ilê Axé Opô Afonjá, terreiro que foi liderado por Mãe Stella, programou uma série de atividades e rituais em homenagem à ialorixá, ampliando o clima de reverência que toma conta da Bahia neste final de ano. Salvador se despede de duas mulheres que ocuparam lugares centrais na história religiosa, cultural e política do estado e do país.
Mulheres negras, fé e resistência
A trajetória de Mãe Carmem não pode ser dissociada da história das mulheres negras no Brasil. Assim como sua mãe, Mãe Menininha, ela exerceu liderança em um contexto de perseguição institucional, criminalização do candomblé e preconceito estrutural. O simples ato de manter um terreiro funcionando ao longo de décadas foi, por si só, uma forma de resistência.
Segundo dados do Disque 100, as denúncias de intolerância religiosa no Brasil cresceram mais de 80 por cento na última década, com as religiões de matriz africana sendo as principais vítimas. Nesse cenário, lideranças como Mãe Carmem cumpriram um papel essencial ao garantir que os terreiros permanecessem vivos, ativos e reconhecidos como espaços legítimos de fé e cultura.
Uma perda que atravessa gerações
Mãe Carmem era reconhecida por sua postura serena, pelo cuidado com as pessoas e pela forma como conduzia os rituais e as relações internas do terreiro. Mesmo para aqueles que não a viam com frequência, sua presença era sentida como referência, segurança e continuidade.
Sua morte provoca um sentimento coletivo de luto e também de responsabilidade. A sucessão no Gantois, como em outros grandes terreiros, não diz respeito apenas à escolha de uma liderança espiritual, mas à preservação de uma herança que atravessa gerações e sustenta parte fundamental da identidade brasileira.
O que fica
Com a morte de Mãe Carmem, o Brasil perde uma liderança religiosa, uma guardiã da tradição iorubá e uma mulher que dedicou sua vida à manutenção do axé, da fé e da dignidade do povo de santo. Seu legado permanece nos ensinamentos transmitidos, nos rituais preservados e nas pessoas que passaram pelo Gantois ao longo de quase um século.
A pergunta que se impõe agora não é apenas quem assumirá seu lugar, mas como o país seguirá lidando com a proteção das religiões de matriz africana, com o respeito à diversidade religiosa e com a valorização das lideranças negras que sustentam parte essencial da nossa história.
A memória de Mãe Carmem segue viva. O desafio é garantir que seu legado não seja apenas lembrado, mas respeitado e protegido.

