Entre as prateleiras que guardam a memória do mundo e o aroma indistinguível de café e papel antigo, a Livraria Belle Époque se impõe não apenas como um espaço, mas como um acontecimento. É o reduto onde o tempo parece desacelerar para que caibam os diálogos densos de escritores, a inquietação de professores, as melodias suspensas de músicos e o olhar atento dos produtores da sétima arte. Um ecossistema de mentes que criam e recriam a realidade a todo instante.

É sob a luz mansa desse refúgio, compartilhando o mesmo vinho que serve de combustível para as grandes ideias, que tenho o privilégio de guiar a conversa de hoje. Minha convidada é uma força criativa que transita, com a mesma maestria, pelos abismos da psique humana e pelas nuances da narrativa visual e literária.

Magna é psicóloga por vocação e pós-graduada em Relações Étnico-Raciais pela Universidade Cândido Mendes — uma intelectual que decifra as complexidades das nossas identidades e feridas estruturais com precisão cirúrgica. Mas o seu transbordar artístico não para na escuta clínica. Como diretora e roteirista, ela molda a luz e a sombra do cinema em trabalhos extraordinários; como escritora, tece palavras que provocam e acolhem, em uma obra de riqueza literária singular.

Com um currículo que não apenas impressiona, mas majestosamente inspira, lhes apresento a mente por trás da arte: Magna Domingues.

Seja bem vinda Magna!

1. Roberto Valleck: Você transita com muito sucesso pela Psicologia, Educação, Literatura e Cinema. Como essas diferentes áreas se conectam na sua vida e como foi o início da sua jornada profissional?

Magna Domingues: Primeiramente, obrigada pelo convite para esta entrevista e por chamar esse movimento de sucesso. Eu agradeço e reflito sempre sobre o que significa sucesso, mas recebo e aceito porque, para mim, o sucesso de uma mulher negra significa também estar viva, lúcida, ativa e fazendo parte de uma história coletiva, deixando registros de sua presença no mundo; por isso eu posso celebrar.

Eu costumo dizer que, apesar de eu ter muitas personas profissionais, todas elas têm uma coisa em comum: as histórias. Eu trabalho, desde sempre, com histórias, ouvindo ou contando.

Comecei dando aula para os anos iniciais do ensino fundamental e gosto muito de dizer que a escola me deu tudo o que tenho hoje. Como aluna e como professora, a escola para mim sempre foi um espaço de expansão de possibilidades e de inspiração. Como estudante de Psicologia, sempre quis trazer a escola para a centralidade das minhas pesquisas, buscando desmistificar o espectro de uma escola pública como um lugar simplesmente precarizado, sempre trazendo à tona as possibilidades de transformação social que necessariamente passam pela escola quando estamos falando dos filhos e filhas da classe trabalhadora. Como professora e contadora de histórias nas escolas, surgiu o primeiro desejo de publicar um livro, que virou filme e que me colocou no cinema de vez. E continuei contando histórias, hoje para crianças e adultos, em múltiplas linguagens.

Ou seja, parecem coisas distintas, mas estão muito ligadas, e tudo começou na escola.

2. Roberto Valleck: Por mais de 10 anos, você atuou como professora dos Anos Iniciais em Duque de Caxias. De que forma o contato diário com as crianças na sala de aula inspirou você a começar a escrever e a criar conteúdos audiovisuais para o público infantil?

Magna Domingues: Em 2016, eu assumi a função de Dinamizadora de Leituras Literárias na escola onde eu trabalhava, lá na Baixada Fluminense, que é uma função também conhecida como professora da sala de leitura. E eu sempre trabalhei muito com literatura infantil na sala de aula porque é uma ferramenta fundamental para quem trabalha com educação infantil e nos anos iniciais. Mas estar naquela sala de leitura, numa biblioteca de uma escola de mais de 50 anos, com um acervo gigante, também me provocou muito no lugar de curadoria literária, de ter um olhar mais crítico para essas literaturas.

E também sobre observar uma biblioteca que tinha mais de 2 mil exemplares de livros infantis e juvenis, mas em que menos de 5% dessa literatura tinha protagonismo negro; e, quando tinham personagens negros, muitas vezes apareciam cheios de estereótipos. Eu costumo dizer que não basta só ter um personagem negro na capa. A gente precisa entender quem escreveu e como escreveu, como ilustrou, como esse personagem se relaciona com os outros na história. Porque o racismo, muitas vezes, passa de forma velada, se revelando em ilustrações pejorativas ou numa narrativa rasa e estigmatizada, por exemplo. É importante que as infâncias negras sejam não apenas representadas, mas que sejam positivamente representadas, com responsabilidade estética, com afeto.

E essa inquietação quanto ao número muito baixo de exemplares de literatura que a gente possa chamar de literatura preta, de literatura decolonial para as infâncias, começou a me instigar para uma pesquisa tanto por outras escritoras e escritores negros que produzem bons livros, mas que, por algum motivo, não chegavam ali naquele público, daquelas prateleiras. Isso me fez pesquisar e transitar por várias histórias e autores que não estavam no grande mercado literário, até que eu mesma também desejei contar as minhas próprias histórias, a partir das minhas referências.

E isso se reflete na minha literatura. Eu publiquei dois livros infantis antes de lançar o meu primeiro filme, que é Meu Nome é Maalum, que já é uma adaptação literária, e continuei escrevendo para o audiovisual. Maalum cresce em outras linguagens e outros formatos. Eu também tenho personagens novos, como João Moleque Bom, que este mês eu vou lançar em HQ, e provavelmente entre agosto ou setembro lanço um livro também chamado Dengo, que também é um livro para a primeira infância e também um projeto audiovisual em desenvolvimento com esse personagem. Então, mais uma vez, eu posso dizer que a escola me deu isso: ampliar esse olhar sobre as infâncias e querer ocupar espaços como contadora de histórias em múltiplas linguagens e contribuir para uma luta antirracista a partir da educação, da literatura e do audiovisual.

3. Roberto Valleck: Você possui especialização em Relações Étnico-Raciais. Como esse conhecimento acadêmico se transformou em uma ferramenta prática nas suas obras para combater o racismo desde a infância?

Magna Domingues: Todo mundo que se propõe a dar aula, contar histórias e a produzir conteúdo com responsabilidade política, além de estética, como é o meu caso, precisa estar sempre estudando. A gente está sempre estudando de maneira formal e informal. Ter feito essa especialização foi fundamental para poder encontrar outras histórias e outras narrativas que vinham dos professores, novas perspectivas e novas literaturas para mim. E com certeza isso também foi importante para os meus próximos passos. Eu também tenho sonhos acadêmicos ainda. Hoje não é uma prioridade na minha vida, porque estou no mercado em muitas horas semanais, mas em algum momento eu volto (risos). Estou em uma sala de roteiro como roteirista convidada, e também escrevendo a série da Maalum. Foram coisas que vieram a partir da minha trajetória como pesquisadora também, e essa atualização constante é fundamental, esse estudo sobre cultura e história para o desenvolvimento das minhas próprias narrativas negras.

4. Roberto Valleck: Você é a idealizadora do projeto “Baú Encantado”. Como funciona essa iniciativa e qual é o impacto que você busca gerar nas crianças através das oficinas de literatura, cinema e do clube de leitura?

Magna Domingues: O Baú Encantado foi um nome que surgiu quando comecei a sair um pouco da escola com a literatura e passei a resgatar a figura da Magna Matriz, pois estudei teatro durante um tempo e passei a planejar pequenas apresentações de contação de histórias. Fiz isso em algumas fases da minha vida, passei por alguns editais de cultura e esse nome veio caminhando comigo.

Esse projeto se desenvolve em múltiplas linguagens. Durante a pandemia, realizei muitas contações de histórias on-line, além de oficinas virtuais. Hoje, continuo fazendo participações em eventos e palestras por meio dessa minha produtora, que se chama Baú Encantado, assinando produções e coproduções. O Baú Encantado hoje é uma empresa vocacionada para a reparação histórica, o que significa ser dirigida por pessoas negras comprometidas com o desenvolvimento de conteúdos identitários que contribuem para essa reparação.

5. Roberto Valleck: Você já publicou vários livros infantis. O que histórias como Brincar na rua ou a série premiada da personagem Maalum trazem de mais precioso para a literatura infantojuvenil brasileira?

Magna Domingues: As histórias que busco contar são narrativas onde os personagens protagonistas são sempre negros, por escolha minha. Mas não só isso: gosto muito de trazer o conceito cunhado por Sônia Rosa, que é o de “literatura negra afetiva”. Isso significa desenvolver histórias e personagens negros que, para além do protagonismo, também sejam retratados de forma livre de estereótipos, de maneira afetuosa, em situações de conforto, de segurança e vivenciando uma jornada positiva — que enfrentará desafios, sim, mas que não estará reduzida a estigmas.

Busco desenvolver personagens ricos e complexos, que vão além do debate sobre o racismo e que carregam a dignidade de poder viver múltiplas histórias. Nós já temos um volume enorme de livros que falam sobre a cor da pele, o cabelo e o combate ao racismo, e isso não deixa de ser importante; no entanto, temos muitas outras histórias para contar, temos múltiplos sonhos, desejos e possibilidades. As narrativas sobre nós não podem se reduzir a um, dois ou três temas.

Brincar na rua fala sobre o cotidiano das brincadeiras de rua na periferia. Meu nome é Maalum vai tratar de um episódio de racismo, sim, mas é, sobretudo, a história de uma família que escolhe nomear sua filha com um nome de origem africana e fala um pouco sobre o desejo do resgate da ancestralidade a partir dessa escolha. João Moleque Bom é outro personagem meu que está muito preocupado com a especulação imobiliária no seu bairro. Há tantas outras narrativas que temos desenvolvido, seja de forma individual ou em parceria com outras pessoas em quem confio, que admiro e que considero o grande diferencial das histórias produzidas por projetos vocacionados, comprometidos com uma reparação histórica e sob uma perspectiva decolonial.

6. Roberto Valleck: Além dos livros infantis, você tem uma presença forte em antologias com contos e capítulos marcantes. Como é para você escrever para o público adulto e abordar temas de ancestralidade e vivências negras em textos como os das coletâneas Yabás e Carolinas?

Magna Domingues: Gosto muito de escrever sobre tudo. Escrevo todos os dias e sou atravessada por vários temas do cotidiano. O que mais gosto de escrever é ficção, por isso acabo me aproximando de iniciativas como as da FLUP (Festa Literária das Periferias), que criou a coletânea chamada Carolinas, da qual tenho a maior alegria de ter participado. Inclusive, o texto que publiquei em Carolinas acabou se tornando uma adaptação audiovisual: publiquei um conto nesse livro chamado “Mãe Coragem” e depois o levei para o cinema, em um curta-metragem intitulado Na sua companhia.

Tenho a crença de que a literatura é o meu caminho para a imortalidade; como não quero morrer, escrevo para viver para sempre. É por isso que acho que já participei de várias coletâneas, pois nunca perco uma oportunidade de ser publicada. Pretendo participar de outras e também planejo, quem sabe em um futuro de médio prazo, lançar um livro inteiramente escrito por mim, além dos livros infantis. Quem sabe, né? Será que vem por aí?

7. Roberto Valleck: O curta-metragem de animação Meu nome é Maalum é um grande sucesso e recebeu diversos prémios. Como nasceu a ideia dessa história e qual a importância de ver essa narrativa se expandir agora para uma série de TV?

Magna Domingues: A ideia de Meu Nome é Maalum nasceu da boca de uma própria criança chamada Maalum, que nos contou que era muito difícil sempre ter que corrigir as pessoas falando seu nome errado. Mas nasceu também do desejo de contar uma história que celebrasse a diversidade, a ancestralidade e a riqueza das culturas africanas de uma forma sensível, afetiva e inspiradora para crianças e famílias.

O sucesso do curta e o reconhecimento que ele recebeu por meio dos prémios mostraram que essa história conseguiu se conectar com públicos muito diversos. Isso foi extremamente gratificante e também reforçou a importância de continuarmos investindo em narrativas que ampliem as abordagens negro-afetivas no audiovisual infantil.

Ver essa história se expandir agora para uma série de TV é muito significativo, porque nos permite aprofundar o universo de Maalum, desenvolver melhor os personagens e explorar novas aventuras, temas e aprendizados.

Maalum representa o movimento Sankofa, que significa “nunca é tarde para buscar o que ficou no passado”. Os nossos ancestrais, durante a travessia do oceano, perderam também os seus nomes, pois ao chegarem à América foram rebatizados com nomes católicos. E hoje, quando uma família escolhe dar um nome de origem africana para a criança que nascerá, isso também representa Sankofa.

8. Roberto Valleck: Na minha infância, nos anos 80, fui uma criança que sofreu racismo na pré-escola. Assistindo à sua entrevista no ‘Senta Direito, Garota’, me identifiquei muito quando você contou sobre aquela sua aluna negra que rejeitou a história do livro Menina Bonita do Laço de Fita, de Ana Maria Machado. O que te despertou a escrever a história de Maalum a partir dali? Naquele momento, a menina estava perdida no mar e você foi o seu porto seguro. Pensando nisso, como ficam as milhares de outras crianças pretas pelo país hoje? Como você enxerga o papel dos professores diante dessa realidade atual?

Magna Domingues: Olha, eu fico muito emocionada de saber que você se identificou com essa história, que se emocionou de alguma forma. Porque esse episódio realmente marcou a minha trajetória profissional. Apesar de corriqueiro, eu nunca esqueci aquele dia; marcou uma virada profissional para mim. Uma vez conheci uma professora que fazia uma série de entrevistas orientadas por uma pergunta: “A sua participação na luta antirracista foi motivada pelo amor ou pela dor?” e eu digo que a minha foi pela dor, a partir desse episódio.

Só para contextualizar aqui, e de forma muito resumida: uma aluna falou para mim que o coelho da história Menina Bonita do Laço de Fita — para quem não conhece, é uma história onde um coelho branco é apaixonado por uma menina negra e ele faz de tudo para ser parecido com ela — e aí essa criança respondeu, logo depois da leitura, que esse coelho é maluco porque “preto é muito feio”.

Pensando em como ficam as milhares de crianças pretas pelo país hoje, a gente tem um exército de educadoras e famílias, e de movimentos negros conquistando direitos e reparação histórica. Quando a gente fala de escola, é impossível não mencionar a Lei 10.639, que obriga que todas as escolas tenham o ensino de cultura e de história africana e afro-brasileira.

Mas essa lei precisa ser cumprida, porém não é o que acontece em todas as escolas. Não basta ser uma lei no papel, ela tem que ser uma realidade nos currículos, nas narrativas. A militância negra, com os nossos mais velhos, já deu muitos passos e temos avanços muito importantes. Agora, o papel do professor em sala de aula, seja ele branco, preto ou amarelo, é ser comprometido com a reparação histórica, principalmente quando a gente fala das escolas públicas. O professor que cumpre a Lei 10.639 na construção de seus currículos e do seu planeamento, ele não é um militante só por isso, ele não é um destaque — ou não deveria ser. Ele está a fazer a sua obrigação, cumprindo a lei, e é muito importante que a gente atente para isso enquanto profissionais de educação, mas também enquanto famílias e cidadãos. Eu teria várias coisas para dizer sobre essa pergunta, mas eu gostaria de me deter na seguinte afirmação: nós precisamos referendar e cumprir a Lei 10.639.

Roberto Valleck: Em Minas Gerais tem o projeto Ginga, este projeto leva pessoas pretas que tiveram ascensão na carreira para falar sobre suas trajetórias para crianças e adolescentes do ensino fundamental e médio, inclusive ano passado fui palestrante em Machado-MG, achei bacana o projeto porque traz uma outra perspectiva e representatividade para os alunos.

9. Roberto Valleck: Além de animações infantis, você dirigiu e roteirizou o documentário Mulheres e Legislativo – Histórias que se cruzam. O que a moveu a registrar a presença feminina na política e como foi a experiência de dirigir esse formato?

Magna Domingues: Nesse projeto, cheguei como convidada. A iniciativa e a autoria foram das mulheres pesquisadoras e militantes feministas do IBAM (Instituto Brasileiro de Administração Municipal). O resultado faz parte de uma pesquisa desenvolvida por elas. Para mim, chegar como profissional do audiovisual para contribuir foi um verdadeiro privilégio; poder estar perto, ouvir e aprender com figuras históricas da política. Tainá de Paula, Marta Rocha e Verônica Lima, entre outras, são grandes referências na política brasileira.

10. Roberto Valleck: Você tem trabalhado intensamente em curtas-metragens recentes, como Da sua, Maria, Na sua companhia e Cinderela do Samba. O que o público pode esperar dessas produções mais recentes que estão saindo do forno?

Magna Domingues: Ah, eu sou muito feliz com essa trilogia. Não se trata de uma trilogia com uma sequência de histórias, mas são três narrativas que têm em comum o tema das maternidades.

Da sua, Maria é um filme que fala sobre o luto neonatal, sobre essa maternidade do colo vazio.

Na sua companhia é uma homenagem a Carolina Maria de Jesus. Como é uma adaptação de um conto que publiquei em um livro em homenagem a ela, traz a narrativa de uma mulher grávida em situação de vulnerabilidade social. Contudo, a história não é estritamente sobre a vulnerabilidade social; o filme aborda as ambiguidades de sentimentos de uma pessoa grávida, versando sobre o desejo de ser mãe e, ao mesmo tempo, o medo ou o desejo de não ser.

E Cinderela do Samba, que é o único que ainda não foi lançado, mas estreará ainda em 2026, é uma história de amor que acontece no ambiente do samba. No entanto, essa mulher sempre tem de ir embora cedo — ela sai justamente no melhor horário do samba porque é mãe solo e tem horário para voltar. Apesar de ser um assunto muito duro e sério, que é a sobrecarga materna, ele será contado de forma muito leve, em um ritmo de comédia com um toque de fantasia, passando-se inteiramente em uma roda de samba e fechando essa trilogia.

Então, aguardem e torçam para que haja bastante circulação para podermos assistir juntos. Este ano eu faço 40 anos e quero organizar uma sessão de exibição dos três filmes juntos. Como são três curtas, seria uma sessão com menos de uma hora no total. Eu gostaria de dar um nome para essa mostra, que seria: “40 anos e uma trilogia: como o cinema mudou a minha vida”.

11. Roberto Valleck: Em 2022, você recebeu o Prêmio Heloneida Studart da ALERJ por sua relevância na cultura do Rio de Janeiro. O que significou para você receber esse reconhecimento oficial do seu estado?

Magna Domingues: Receber o Prêmio Heloneida Studart foi uma honra muito grande. Mais do que uma conquista pessoal, recebi esse prêmio em uma cerimônia de reconhecimento a toda uma trajetória dedicada à cultura, à educação e à valorização da diversidade por meio do audiovisual. Foi também uma homenagem a todas as mulheres que atuam na cultura e que, muitas vezes, enfrentam inúmeros desafios para desenvolver seus projetos e ocupar espaços de liderança.

Levar o nome de Heloneida Studart, uma mulher que teve uma atuação tão importante na defesa dos direitos das mulheres e na cultura brasileira, torna essa homenagem ainda mais significativa. O prêmio reforçou em mim a certeza de que estou no caminho certo e motivou-me a continuar criando projetos que promovam inclusão, representatividade e transformação social por meio da arte e da comunicação.

12. Roberto Valleck: Recentemente, em 2025, o filme Da sua, Maria ganhou o prêmio de Melhor Filme com direção feminina no Pupila Film Festival. Como você enxerga o atual momento das mulheres negras ocupando as cadeiras de direção no cinema brasileiro?

Magna Domingues: Ainda somos minoria, mas somos muitas e somos diversas. Estamos em diferentes lugares e temos diferentes narrativas. Ser maioria na sociedade e ser minoria enquanto contadoras de histórias não pode ser considerado normal. Precisamos de políticas públicas mais eficazes para ampliar esse espaço. Estamos lutando por isso, as mulheres negras do audiovisual constroem narrativa estética e constroem políticas públicas. O próprio termo que usei aqui mais de uma vez – Empresa vocacionada para reparação histórica – é um conceito desenvolvido pela diretora Viviane Ferreira, que além de criadora, pesquisadora, atua também como gestora na defesa de políticas afirmativas. Estamos em luta constante, mas ainda temos muito o que avançar.

13. Roberto Valleck: Você já participou de laboratórios de escrita importantes, como o LANANI (da Flup com a Globo) , e de salas de roteiro de grandes séries. Como essas experiências coletivas de criação enriquecem o seu trabalho individual?

Magna Domingues: Os laboratórios são fundamentais para o  desenvolvimento profissional e criativo. São espaços que nos desafiam a sair da nossa perspectiva individual e a construir histórias de forma colaborativa, ouvindo diferentes vozes, experiências e visões de mundo.Também é uma oportunidade de conhecer pessoas novas e ampliar uma rede de trabalho, principalmente entre pessoas racializadas, no meu caso. Acredito que a criação coletiva fortalece o trabalho individual porque nos torna profissionais mais abertos, mais atentos e mais preparados para contar histórias que dialoguem com diferentes públicos e realidades.

14. Roberto Valleck: Você foi eleita Conselheira Estadual de Cultura no Rio de Janeiro para a cadeira do audiovisual. Quais são as principais frentes e melhorias que você defende hoje para o setor de cinema e TV no estado?

Magna Domingues: O audiovisual é uma ferramenta estratégica para a cultura, a educação, a economia criativa e a geração de empregos, e por isso precisa ser tratado como uma política pública permanente.Entre as principais frentes que defendo estão a ampliação dos mecanismos de fomento e a garantia da continuidade das políticas públicas para o audiovisual, permitindo que produtores, roteiristas, diretores e demais profissionais tenham condições de desenvolver seus projetos de forma sustentável. Também considero fundamental fortalecer a regionalização dos investimentos, para que as oportunidades cheguem a todas as regiões do estado e não fiquem concentradas apenas na capital.Outra pauta importante é a promoção da diversidade e da inclusão no setor, ampliando o acesso de mulheres, pessoas negras, indígenas, periféricas e de outros grupos historicamente sub-representados aos espaços de criação, produção e decisão. Para isso precisamos de políticas de ação afirmativa na distribuição dos recursos públicos.Também defendo investimentos em formação e capacitação profissional, especialmente para jovens e novos realizadores, além do fortalecimento das políticas de preservação da memória audiovisual e do incentivo à circulação e distribuição das produções fluminenses.

15. Roberto Valleck: Além de criar, você atua frequentemente avaliando projetos, participando de júris de festivais (como o FICI e o ComKids) e fazendo curadoria. O que você busca em uma obra quando está no papel de avaliadora ou curadora?

Magna Domingues: Procuro obras que tenham originalidade, propósito e que sejam factíveis, afinal uma ideia é uma coisa, um projeto é outra. Precisa ser objetivo naquilo que quer comunicar e que encontrem uma forma criativa e sensível de fazer isso. Penso sempre em quem é essa criadora ou criador, buscando uma diversidade de vozes e perspectivas no audiovisual. Como realizadora, sei o quanto existe dedicação por trás de cada projeto. Por isso, quando estou avaliando uma obra, procuro olhar para ela com rigor, principalmente quando envolve o investimento de verba pública, mas também com abertura e sensibilidade, buscando reconhecer tanto a excelência artística quanto o potencial de impacto cultural e social que aquela narrativa pode gerar.

16. Roberto Valleck: Olhando para o futuro, você tem novos projetos em desenvolvimento, como a série de animação João Moleque Bom. Que sonhos você ainda quer realizar na literatura, na educação e nas telas do cinema?

Magna Domingues: O sonho de toda pessoa que escreve é ser lida, assistida, discutida e até mal falada (risos). Meu sonho é viver das histórias para sempre. Quero desenvolver novos projetos que estão no papel, mas também quero que meus livros e filmes circulem mais, quero ser lida e assistida, quero conversar sobre isso e contribuir com essa troca de experiências para o desenvolvimento dos mais jovens. Eu também ainda tenho muito o que aprender, então vou continuar lendo e assistindo filmes todos os dias.

17 Roberto Valleck: Magna, conhecer mais de perto o seu universo artístico foi um privilégio. Agradeço imensamente pela honra de conversar com você e deixo este espaço final inteiramente livre para as suas reflexões e considerações:
Magna Domingues: Quero agradecer pelo convite e pela oportunidade de contar parte da minha história.
Acredito que a arte tem um papel fundamental na formação de identidade, na preservação da memória e na construção de novos imaginários.
Eu sigo buscando rotas de fuga nessa sociedade racista e caminhos que ampliem as possibilidades de reparação histórica. Mas é uma trajetória que não é possível seguir sozinha, faz parte de uma luta coletiva, por isso não abro mão de trabalhar em defesa das políticas públicas, nem de referendar as que vieram antes de mim.
Muito obrigada, Axé!

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