Enquanto 85% dos recursos do Pronaf na região Norte vão para a pecuária, comunidades indígenas e tradicionais seguem sem acesso ao crédito rural. O Plano Safra 2026/2027 pode ser o ponto de virada — se houver vontade política para tanto

Por Maria Antônia Perez

Se observar mais atentamente a sociedade vai perceber que há uma ironia cruel no coração da Amazônia. A mesma floresta que o mundo inteiro olha como solução para a crise climática, que guarda biodiversidade incomparável e sustenta economias de açaí, castanha, cacau e pesca artesanal, ainda não consegue acessar o crédito rural que financia sua própria preservação. As comunidades que vivem nela, que a conhecem melhor do que qualquer cientista, que a protegem há gerações — essas comunidades continuam presas numa burocracia que parece desenhada para excluí-las.

Os dados são eloquentes. Na região Norte, 85,4% do volume de recursos do Pronaf — o principal programa de crédito para a agricultura familiar — foi destinado à pecuária em 2025. Menos de 8% chegaram às cadeias da sociobioeconomia: cacau, açaí, castanha-do-Brasil, óleos vegetais, pesca artesanal e sistemas agroflorestais. No Brasil inteiro, cerca de 70% dos recursos do Pronaf estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste. E mais de 40% das famílias da sociobioeconomia declararam não possuir CAF ativo — o Cadastro da Agricultura Familiar, documento indispensável para acessar as linhas de financiamento.

A Rede ÓSocioBio e o Instituto Conexsus, organizações que atuam diretamente com essas comunidades, apontam um paradoxo estrutural: as exigências burocráticas foram concebidas para um modelo de agricultura que não é o da floresta. Exigir nota fiscal de insumos comprados em pequenos comércios locais ou informalmente é, na prática, uma barreira intransponível para quem vive em comunidade ribeirinha a horas de distância de uma agência bancária.

“A sociobioeconomia representa uma oportunidade estratégica para o Brasil. São cadeias produtivas de alto valor que geram renda, fortalecem comunidades rurais e contribuem para manter a floresta em pé. Ampliar o acesso ao crédito para essas atividades significa transformar a biodiversidade em desenvolvimento sustentável”, afirma Fernando Moretti, diretor de Políticas da Sociobioeconomia da Conexsus.

A Conexsus desenvolveu um aplicativo para tentar diminuir esse abismo — uma plataforma digital que ajuda cooperativas e negócios comunitários a organizar documentos, elaborar projetos de crédito e se comunicar com instituições financeiras. A tecnologia como ponte onde o Estado ainda não chegou.

Laura Souza, secretária executiva do ÓSocioBio, é direta: o excesso de exigências burocráticas segue excluindo povos indígenas, comunidades tradicionais e agricultores familiares das políticas públicas que deveriam fortalecê-los. O Plano Safra 2026/2027 representa uma oportunidade concreta de correção. Entre as demandas mais urgentes estão a descentralização da emissão do CAF, o fortalecimento da assistência técnica nos territórios e a criação de mecanismos de garantia para cooperativas comunitárias. A floresta já está se financiando. Ela só precisa que o sistema financeiro aprenda a vê-la.

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