O assunto que abordo a seguir talvez esteja frio. Afinal, o carnaval já passou. No entanto, diante de uma possível mudança na Série Ouro do carnaval do RJ, resolver trazer a questão à baila até porque gostaria que a Acadêmicos de Niterói permanecesse entre grandes caso a mudança para 15 escolas seja confirmada. Ela merece.
Uma das partes mais interessantes da língua portuguesa é aquela destinada às figuras de linguagem. Entre elas, a metáfora, que consiste numa comparação implícita, muitas vezes apelando ao sentido figurado. Como exemplo, cito a expressão ‘coração de pedra’. Quando digo que alguém tem essa característica, refiro-me ao fato de a falta de compaixão ser tão forte a ponto de parecer que essa pessoa tem uma pedra no lugar do coração. A metáfora pode ser também utilizada em poesia, música ou literatura para tornar o texto mais elegante ou expressivo. É o caso do livro “Iracema”, em que o autor, José de Alencar, se refere à personagem-título como “a virgem dos lábios de mel”.
Fiz essa introdução para comentar um fato polêmico, bem-humorado e revelador que tomou conta das redes sociais no carnaval de 2026. Refiro-me ao desfile da escola de samba fluminense Acadêmicos de Niterói, que levou para a Av. Marquês de Sapucaí a vida do presidente da República Luís Inácio Lula da Silva. Uma ala em particular chamou atenção e causou celeuma: pessoas fantasiadas de latas de ervilha. No rótulo, uma família branca, heteronormativa e acompanhada da frase ‘família em conserva’.
As pessoas conservadoras de extrema direita não gostaram nem um pouco. Tanto que, no dia seguinte ao desfile, postaram nas redes sociais fotos das próprias famílias estampando latas de conserva. Para eles, a ala da Acadêmicos de Niterói estava afrontando a tradicional família brasileira.
Como dizem vários especialistas em educação, o Brasil é um país com problemas bem complexos na área. Enfrentamos altos índices de evasão escolar, analfabetismo funcional, currículos defasados, professores mal remunerados e necessitados de atualização, alunos pouco ou nada motivados, escolas mal equipadas, baixos índices de leitura, mesmo entre gente que estudou em boas escolas etc. Isso tudo contribui para que haja extrema dificuldade em interpretar uma metáfora visual ou uma alegoria política como a apresentada na ala da referida escola de samba.
A agremiação não estava caçoando das pessoas que formam uma família tradicional. Se fosse assim, toda e qualquer família calcada nos moldes convencionais (pai, mãe e filhos) se sentiria ofendida. Não foi o caso. Quem é articulado e progressista entendeu o que a escola quis dizer e se divertiu. Os incomodados, por sua vez, protestaram não apenas por má vontade, mas também por dificuldade de fazer uma abstração, ler nas entrelinhas, decodificar sentidos figurados ou identificar ironias. Ou então, por puro preconceito mesmo. Em suma: falta base social, cultural, histórica e política.
O carnaval é uma festa na qual pessoas que usualmente vivem à margem vêm para o centro. Gente que sempre teve a cultura violentada, mas que, no período em que Momo reina, ganha os holofotes. Por ser uma festa construída por essa brava gente, o carnaval sempre foi carregado de forte crítica social e política. Há desfiles que se tornaram históricos por retratarem assuntos que ainda nos infelicitam: injustiça social, racismo, moral seletiva, hipocrisia religiosa, hierarquias e privilégios, corrupção, preconceito etc. Portanto, a sátira que a Acadêmicos de Niterói levou para a avenida não foi algo inédito. De neutro, o carnaval nada tem.
Mas o que, afinal, a escola quis dizer com aquela ala em conserva? Que devemos questionar o uso da família como escudo social enquanto, na intimidade, campeiam a violência doméstica, o abandono paterno, diversos casos de homofobia, estupro de crianças, adultérios etc. É cruel, eu sei, mas trata-se de temas contundentes que precisam ser debatidos para que sejam encontradas soluções.
É importante também ressaltar um fato que passou despercebido da grande maioria do público. Quase todo mundo prestou atenção somente ao rótulo com a família padrão estampada. Poucos, no entanto, se atentaram a como os fantasiados de lata – todos com a tampa aberta – estavam caracterizados do tórax para cima. Lá estavam eles de dondocas, militares e representantes do agronegócio, entre outros segmentos, todos cercados por grãos de ervilhas repletos de mofo. A crítica, então, não foi contra a família tradicional, mas contra quem mantém uma estrutura tradicional familiar apenas como fachada e, por debaixo dos panos, apoia a tortura, vive traindo a esposa, comete feminicídio, põe agrotóxicos nos alimentos por puro lucro, passa a mão por cima de filhos homens que matam cachorro a pauladas ou participam de estupros coletivos… Encaixam-se também na crítica os pastores que enriquecem à custa da boa fé alheia, bem como os políticos que pregam em nome da família, mas que maltratam milhões de famílias ao votarem contra projetos que têm por objetivo melhorar as condições de vida da população e participam de toda sorte de conchavos e falcatruas que visam ao enriquecimento ilícito.
Que tipo de família, afinal, os que se sentiram atingidos querem preservar? A deles, ou seja, hierarquias seculares que beneficiam as elites e deixam à margem as muitas minorias que compõem o grosso da população brasileira. Trata-se, por isso, de um conservadorismo que não quer saber de harmonia social, mas de manter estruturas que produzem concentração de riqueza, sofrimento, pobreza, desigualdade, moral opressora que transforma diversidade em pecado e por aí vai. Basta olhar para a história do nosso país, construída à base de escravidão, patriarcado, submissão feminina, perseguição às ditas minorias e religiões que incutem culpa e medo nas consciências. Os reacionários de sempre não querem conservar costumes que são caros a todo e qualquer tipo de família (carinho, união, cumplicidade, aconchego etc.), mas sim a lógica do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. No caso, eles mandam. Só que, por não estarem acostumados a entender uma metáfora, acabaram mordendo a isca da escola de samba niteroiense e deixaram vir à tona tudo de retrógrado e abjeto que representam.
Marcelo Teixeira

