Um alerta sobre violência emocional e responsabilização legal

O rompimento de um relacionamento raramente ganha contornos públicos com a densidade que se viu nos relatos de Quitéria Chagas. Aos 45 anos, atriz, psicóloga e uma das mais reconhecidas rainhas de bateria do país, ela decidiu não apenas encerrar uma relação de sete meses com o empresário Sérgio Pitt, decidiu narrá-la. E, ao fazê-lo, abriu uma fissura incômoda em um terreno que o Brasil ainda reluta em encarar: a violência emocional praticada em relações afetivas, sobretudo quando envolve homens protegidos por capital social e imagem pública consolidada.

O que Quitéria expôs não foi uma briga. Foi um padrão. Em suas palavras, “vivi uma mentira”, sintetizando um percurso que, segundo ela, começou com intensidade, promessas e valorização, e evoluiu para desgaste, instabilidade e desrespeito. Em outro trecho, a definição é ainda mais direta: “foi um excelente ator da manipulação”. Não se trata de retórica emocional vazia. Trata-se da descrição de uma dinâmica reconhecida no campo da psicologia como manipulação afetiva, um processo em que o vínculo é construído rapidamente para, depois, ser corroído de forma progressiva.

Ao longo das declarações, Quitéria revela a tentativa de sustentar uma relação que, segundo ela, se mostrava cada vez mais inconsistente. “Fui verdadeira, intensa, inteira… mas não sou palhaça, tenho limites”, escreveu, em uma frase que marca o ponto de ruptura. A assertividade não é casual. Ela surge, justamente, quando o ciclo de adaptação — comum em relações desse tipo — se esgota. Antes disso, há concessões, dúvidas e tentativas de compreensão. Depois, há o reconhecimento.

Esse reconhecimento ganha dimensão coletiva quando Quitéria amplia o relato para além de si. “Passamos pelas mesmas coisas, vocês não são inferiores a nada”, escreveu, dirigindo-se a outras mulheres. A frase não apenas humaniza o episódio, como revela uma percepção importante: a de que o problema não está na mulher que vive a relação, mas no padrão que se repete. Ao afirmar ainda que “não deu certo com ninguém há mais de um século”, a artista sugere a existência de um comportamento reiterado, que atravessa diferentes vínculos sem, segundo ela, se transformar.

Outro ponto sensível do relato está na forma como ela descreve o comportamento do ex-companheiro. “Quem tem vícios é inconstante, falha caráter, manipula ao próprio interesse”, escreveu. A associação entre instabilidade e comportamento compulsivo não é irrelevante. Ela aponta para um tipo de desorganização emocional que, quando não reconhecida ou tratada, tende a se manifestar diretamente nas relações, afetando não apenas a qualidade do vínculo, mas a integridade emocional de quem está ao lado.

O impacto disso não é abstrato. Quitéria descreve um processo de desgaste que não se materializa em agressões físicas, mas que opera de forma contínua. É o tipo de violência que não deixa marcas visíveis, mas que altera a percepção, a segurança e o equilíbrio emocional da vítima. “Nunca sustentará uma relação, não sabe viver a dois”, afirma, ao apontar para o que entende como incapacidade de construção afetiva consistente.

A gravidade do que foi exposto ganha contorno jurídico quando a própria Quitéria menciona a possibilidade de responsabilização. “Com a nova lei contra violência emocional e psicológica poderia processar por muitas ações além da manipulação, constrangimento, ridicularização”, escreveu. A referência é direta à Lei nº 14.188/2021, que passou a tipificar a violência psicológica contra a mulher no Brasil. Pela legislação, condutas que causem dano emocional, diminuição da autoestima, controle ou humilhação podem, sim, configurar crime.

Ainda assim, Quitéria afirma ter optado por não judicializar o caso. “Resolvi não lascar mais que já tá lascado, a vida será o melhor juiz”, escreveu. A decisão não reduz o peso do que foi dito. Ao contrário, evidencia um ponto recorrente: muitas mulheres reconhecem a violência, mas optam por não seguir judicialmente, seja pelo desgaste, seja pela dificuldade de prova, seja pela percepção de que o sistema ainda não responde à altura desse tipo de agressão.

Há, no entanto, um elemento que torna este caso particularmente emblemático. Quitéria não é uma mulher sem voz. Não depende financeiramente, não carece de visibilidade, não está isolada socialmente. Ainda assim, viveu — e descreveu — uma relação marcada por desgaste emocional. Isso desmonta uma ideia ainda difundida de que a violência emocional atinge apenas mulheres em situação de vulnerabilidade evidente. Ela atinge onde há assimetria de comportamento, não necessariamente de condição.

Ao mencionar a “máscara do selfie na capa de empresário”, Quitéria aponta para outro aspecto estrutural: o descompasso entre imagem pública e prática privada. Homens socialmente bem posicionados tendem a ser protegidos por essa construção simbólica, o que dificulta a leitura crítica de suas condutas no âmbito íntimo. A credibilidade, nesses casos, costuma pender para quem detém mais capital social — e não, necessariamente, para quem viveu a experiência.

O que essa história expõe, em última instância, não é apenas o fim de um relacionamento. É um tipo de violência que ainda circula com relativa liberdade porque não grita, não sangra e não escandaliza — pelo menos não de imediato. Mas que, quando nomeada, revela sua dimensão: uma prática sistemática de desvalorização que, agora, começa a ser reconhecida não apenas como problema afetivo, mas como questão legal.

Quitéria Chagas não foi a primeira a falar. Mas, ao falar, tornou mais difícil fingir que não se vê. Ao trazer sua experiência à público, Quitéria desloca o debate para além do indivíduo. Seu relato evidencia como a violência emocional se estrutura em padrões repetitivos, muitas vezes naturalizados, e como sua identificação ainda enfrenta barreiras culturais e institucionais. Mais do que uma exposição pessoal, trata-se de um alerta: comportamentos que por muito tempo foram tratados como “problemas de relacionamento” podem, hoje, ser compreendidos também como formas de violência com implicações legais.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a reputação de um homem ou a narrativa de uma mulher. É a forma como a sociedade reconhece, nomeia e responde a uma violência que, embora silenciosa, produz efeitos concretos e, cada vez mais, inegociáveis.

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Ana Paula Tergilene é professora, pedagoga, jornalista, editora-chefe e fundadora-presidente da Revista Pàhnorama. Com mais de 25 anos de atuação na imprensa, construiu uma trajetória marcada pelo jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, a diversidade e os direitos humanos. Atua nas áreas de política, cultura e sociedade. É referência em narrativas que dão voz a quem historicamente foi silenciado, unindo rigor jornalístico, sensibilidade social e visão estratégica de comunicação.

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