Sim. É isso mesmo que você acabou de ler. Acabei de utilizar um termo pra lá de deselegante no título e o utilizarei ao longo do texto. Lamento se choco ou ofendo alguém, mas a situação pede. E que situação é essa? Resposta: o telejornal “Estúdio I”, da Globonews. Na sexta-feira, 20 de março, os jornalistas por ele responsáveis se valeram de um “power point” vagabundo e mal-intencionado para relacionar o presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores ao caso do Banco Master e seu titular, Daniel Vorcaro.
As Organizações Globo devem achar que ainda dominam a narrativa jornalística, como acontecia nas últimas décadas do século passado e início deste. Tempo em que as novelas globais tinham audiência estrondosa e o Jornal Nacional – então principal produto telejornalístico da TV Globo e sempre exibido entre a novela das 19h e a das 21h – era a principal via de informação da grande massa populacional.

Só que esse tempo acabou. Hoje em dia, as redes sociais estão recheadas de jornalistas lúcidos, independentes e combativos que não deixam passar esse tipo de jogada. O “power point” canalha repercutiu muito mal, foi criticado por vários profissionais da imprensa e veículos de comunicação e foi alvo até de ex-jornalistas da Globo, como Neide Duarte, Cristina Serra e Ari Peixoto.
Nas redes sociais, Cristina argumentou: “A exibição do ‘power point’ é mais um lance da guerra do oligopólio midiático brasileiro para impedir, a qualquer custo, a reeleição de Lula. É isso que chamam de liberdade de expressão?” Neide, por sua vez, disse: “Quando passei pela sala e vi rapidamente a tela da TV, me pareceu um programa de algum culto pentecostal rápido para atacar o Lula”. Ari arrematou: “… o que era para ser uma emissora de televisão se tornou uma arma política, quase um partido autônomo, dirigido por gente ressentida pelas derrotas sucessivas para os candidatos da esquerda…”.
Diante de tanta reação negativa abalizada, Andréa Sadi, a jornalista apresentadora do “Estúdio I” leu, na edição de 23 de março, um pedido de desculpas bem mequetrefe. Segundo a editoria do telejornal, “o material estava errado, incompleto e acabou misturando contatos institucionais com nomes que Vorcaro menciona como tendo relação contratual ou pessoal”. A “mea culpa” segue: “a arte também estava incompleta, pois não foram incluídos nomes que já se tornaram públicos por envolvimento com o caso Master, como ministros do Supremo e políticos nem ex-diretores do Banco Central que estão sob escrutínio da polícia por suspeita de corrupção na relação com o banqueiro”.
A desculpa seria aceita se exibissem outro “power point” contendo fotos e nomes dos que estão diretamente ligados ao caso, como o governador de SP Tarcísio de Freitas, o agora ex-governador do RJ Cláudio Castro, o ex-presidente Jair Bolsonaro etc. E seriam aceitas se a Globonews retirasse das redes sociais o malfadado “power point”.
Outro motivo para a desculpa não colar: numa empresa do tamanho da Globo, ninguém faz uma arte canhestra como aquela e a põe no ar sem antes passar pela mão de um sem-número de profissionais encarregados de passar o pente fino em tudo que está para ser divulgado. Foi má-fé e foi desonestidade jornalística. Ponto.
Um vizinho de um tio meu costumava nomear esse tipo de comportamento de desculpa de peidorreiro, ou seja, alguém peida na frente de um monte de gente e pede desculpas. Em seguida, peida novamente e torna a se desculpar. E faz a mesma coisa reiteradas vezes, sempre pedindo desculpas. Em suma: a desculpa para o ato flatulento de nada vale, já que o mesmo ocorre de forma proposital. O mesmo vale para quem vive chegando atrasado aos compromissos e sempre pede desculpas. Para quem vive tendo ataque de ciúmes e depois pede desculpas para o “mozão” e por aí vai.
As Organizações Globo são pródigas em torcer ou escamotear a verdade. Em 1989, editaram o debate entre Lula e Collor para favorecer o segundo, que acabou vencendo a disputa pela Presidência da República. No carnaval deste ano, mostraram mal e parcamente o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula, presidente pela terceira vez. Agora, apresenta um “power point” inverídico e bagaceira e vem a público pedir uma desculpa meia sola. Não colou. Mesmo porque, o peido foi alto e está fedendo até agora.
Marcelo Teixeira

