Por Naira Wayand

No Brasil, toda tragédia climática segue o mesmo roteiro. Chove, a cidade colapsa, vidas são perdidas e, quando o sol volta, o país esquece. Esse fenômeno tem nome: síndrome do céu azul. O azul do horizonte mascara a urgência, e o evento extremo, que deveria servir de alerta para mudanças estruturais, é tragado pela memória coletiva como uma infeliz exceção, e não como o novo e cruel padrão.

Mas a emergência climática não se encerra quando as nuvens se dispersam.

Em 2022, Petrópolis registrou mais de 230 mortes após um volume de chuva que desafiou qualquer estatística histórica. Não escrevo como uma analista distante, mas como alguém que sobreviveu e foi deslocada pelo evento. Respirei o luto e senti o cheiro da lama de uma cidade devastada. Quando o céu abriu, a dor não evaporou. As encostas permaneceram feridas, as famílias desabrigadas, enlutadas e o silêncio da cidade ecoou por meses.

Cinco anos depois, a pergunta permanece: o que, de fato, mudou nos alicerces das nossas políticas públicas?

O roteiro se repetiu em 2024, no Rio Grande do Sul, com a maior catástrofe climática da história do estado. Mais de 270 vidas perdidas, milhões de pessoas afetadas e um estado inteiro de joelhos. Hospitais alagados, aeroportos convertidos em lagos e uma infraestrutura inteira em colapso.

Há algumas semanas atrás, Minas Gerais voltou a lembrar ao país que a crise climática não espera. Chuvas intensas provocaram enchentes, deslizamentos em diferentes municípios do estado. Para quem vive nessas regiões, o desastre nunca é inesperado: ele apenas retorna. Entre um verão e outro, o céu abre, a atenção pública diminui e a prevenção volta a ser adiada. Até que a próxima tempestade chegue.

Mulher sobrevive três horas agarrada a poste na enxurrada e é resgatada em Ubá
Foto: Redes sociais/Reprodução

Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mostram que 2024 foi o ano mais quente já registrado, marcado por ondas de calor, secas severas e chuvas extremas em diferentes regiões do país. A era dos extremos já chegou ao Brasil há tempo significativo. No mesmo ano, 578 municípios brasileiros registraram danos significativos provocados por desastres climáticos, afetando aproximadamente 1 milhão de pessoas e gerando prejuízos superiores a R$ 11 bilhões.

E a tendência não arrefeceu.

Em 2025, desastres associados a eventos climáticos extremos afetaram diretamente mais de 336 mil pessoas no Brasil, provocando R$ 3,9 bilhões em prejuízos econômicos imediatos. Em perspectiva histórica, o estudo da Confederação Nacional dos Municípios indica que desastres naturais já geraram R$ 732,2 bilhões em perdas acumuladas para os municípios brasileiros entre 2013 e 2024. No mesmo período, o planeta registrou o terceiro ano mais quente da história, com a temperatura média global atingindo 1,47 °C acima dos níveis pré-industriais, aproximando perigosamente o mundo do limite estabelecido no Acordo de Paris.

O reconhecimento da gravidade da crise climática também avançou no campo jurídico internacional. Em 2025, a International Court of Justice — o principal tribunal das Nações Unidas — afirmou em parecer histórico que as mudanças climáticas representam uma “ameaça urgente e existencial” para a humanidade e que os Estados têm obrigações legais de agir para reduzir emissões e proteger populações vulneráveis.

A omissão de um Estado em tomar as medidas adequadas para proteger o sistema climático… pode constituir um ato ilícito internacional”, afirmou o presidente do Tribunal Internacional de Justiça, Yuji Iwasawa. Ele classificou a crise climática como “um problema existencial de proporções planetárias que põe em risco todas as formas de vida e a própria saúde do nosso planeta e  tem efeitos transfronteiriços”.’’

A decisão reforça que a crise climática não é apenas um desafio ambiental ou econômico, mas uma questão central de responsabilidade internacional e proteção de direitos humanos.

A pergunta é persistente, necessária: quantos planos de adaptação seguem engavetados enquanto a água sobe? Quanto do orçamento público está empenhado na prevenção antes que as imagens do desastre ocupem o horário nobre?

A crise climática é, fundamentalmente, uma crise de direitos humanos. Ela não é democrática; ao contrário, acentua o abismo econômico, racial e de gênero já existente. Os dados oficiais mostram prejuízos bilionários anuais, mas o investimento em resiliência e adaptação continuam sendo uma fração ínfima quando comparado ao custo astronômico e tardio da reconstrução.

Enquanto eventos extremos se multiplicam, decisões orçamentárias continuam revelando prioridades distantes da prevenção. Em diferentes estados brasileiros, aumentos salariais e disputas políticas avançam com rapidez, enquanto planos de adaptação seguem engavetados.

Por que somos reativos quando deveríamos ser responsivos?
Por que a prevenção não gera a mesma comoção que as mortes?

A tragédia tem CEP, tem cor e tem classe social. Quem habita as encostas vulneráveis? Quem ocupa as várzeas negligenciadas? Ignorar a adaptação entre uma tempestade e outra é perpetuar uma desigualdade estrutural que condena sempre os mesmos corpos.

O céu azul não é um atestado de segurança. É apenas um intervalo.

Precisamos decidir se o orçamento público continuará sendo um fundo permanente de reparação de danos ou se passará a refletir a urgência de um país que precisa aprender a sobreviver ao seu novo clima. Porque cada número citado nos relatórios carrega um nome, um rosto e uma biografia, e nenhuma vida deveria depender de quanto tempo dura o céu azul entre eventos climáticos cada vez mais extremos.

Referências

Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN).
Relatório técnico: Clima, extremos e desastres no Brasil – 2024. São José dos Campos, 2024.
Disponível em: https://inctmc2.cemaden.gov.br/wp-content/uploads/2025/03/Relatorio_NT-Clima_Extremos_Desastres-2024-Brasil-digital.pdf

Agência Brasil.
Desastres climáticos afetaram mais de 336 mil pessoas no país em 2025. 2026.
Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2026-02/desastres-climaticos-afetaram-mais-de-336-mil-pessoas-no-pais-em-2025

Confederação Nacional de Municípios (CNM).
Desastres causaram R$ 732,2 bilhões de prejuízos aos municípios entre 2013 e 2024. Brasília, 2024.
Disponível em: https://cnm.org.br/comunicacao/noticias/desastres-causaram-r-732-2-bi-de-prejuizos-aos-municipios-entre-2013-e-2024-revela-estudo-inedito-da-cnm

Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro.
Relatório técnico do desastre de Petrópolis. Rio de Janeiro, 2022.
Disponível em: https://www.rj.gov.br/drm/sites/default/files/arquivos_paginas/RL_09.2022.01-MTDLG-PETROPOLIS.pdf

Defesa Civil do Rio Grande do Sul.
Relatório e atualização oficiais das enchentes de maio de 2024. Porto Alegre, 2024.
Disponível em: https://defesacivil.rs.gov.br/defesa-civil-atualiza-balanco-das-enchentes-no-rs-10-7-66b67813ba21f-66c4eed627af9-680aa31f76e02

Office of the United Nations High Commissioner for Human Rights (OHCHR).
Human Rights Council resolutions on human rights and climate change. Geneva, 2026.
Disponível em: https://www.ohchr.org/en/climate-change/human-rights-council-resolutions-human-rights-and-climate-change

Al Jazeera.
World court hearing says climate change is an urgent and existential threat. 2025.
Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2025/7/23/world-court-hearing-says-climate-change-is-urgent-and-existential-threat

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1 comentário

  1. Clara Fagundes on

    Texto excelente. Ainda não tinha lido sobre esse conceito da síndrome do céu azul, é muito forte e descreve infelizmente muito bem como o país tende a esquecer das tragédias climáticas assim que o sol volta. Você conseguiu unir dados, reflexão e experiência pessoal de um jeito muito humano e impactante.
    Parabéns pelo artigo, necessário e muito bem escrito e fica a sua pergunta ”Por que a prevenção não gera a mesma comoção que as mortes?”

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