No último sábado, 07 de março, enquanto o Rio de Janeiro enfrentava um calor escaldante, o Pura Vita Hostel, em Copacabana, transformava-se no epicentro de uma ocupação artística que está se tornando tradição.
O evento não era apenas mais uma exposição, mas a afirmação do MATAI: a maior mostra de artes plásticas produzida exclusivamente por tatuadores cariocas.
Pinturas, gravuras e experimentações que costumam ficar restritas ao ambiente dos estúdios ganharam as paredes, revelando aos amantes da arte oque existe por trás da agulha. O MATAI nasce com uma missão clara: provar que o tatuador é, antes de tudo, um produtor cultural da cidade. Em um dos hostels mais conceituados da América Latina, o público mergulhou em um ecossistema de troca real, onde a arte saiu da pele para ganhar o mundo.


Nada melhor do que trocar uma ideia com quem vive essa realidade no dia a dia, sendo assim, batemos um breve bate papo com os tatuadores Cintia Mell do Estúdio Mell tattoo Ink, Alan Peixoto do 184 Tattoo, Luiz Victor o vulgo “Dacko” e o idealizador do movimento Matai Nélio Cadar do Studio Radac Tattoo:
Roberto Valleck: Mell, enquanto a tatuagem traduz a identidade de quem a carrega, você sente que as obras desta mostra são, antes de tudo, a expressão nua e crua da sua própria identidade?
Mell: Na tatuagem, a arte vive na pele, eu vejo a arte como extensão do corpo. Por isso, nosso olhar pode ser muito atento em relação entre corpo, gesto e marca. Mesmo numa tela ou escultura, você talvez perceba a obra quase como uma marca deixada pelo artista no mundo, semelhante ao que acontece na tatuagem. Então eu acredito que sim, que as obras dessa exposição são expressão da nossa própria identidade.

Roberto Valleck: Alan, o que as artes plásticas te ensinaram que te fez um tatuador melhor, e vice-versa?
Alan Peixoto (184tattoostudio): A arte não se divide, ela se soma-As artes plásticas me dão o domínio da composição e profundidade. A resposta está na forma como enxergo a pele: Não apenas como um suporte, mas como uma tela viva, com volume e movimento.

Roberto Valleck: Dacko, ao tatuar, o erro é quase inadmissível. Você sente que as artes plásticas te oferecem uma certa “liberdade do erro” maior, ou você traz o rigor da precisão da tatuagem para suas obras?
Dacko: Ao tatuar, o erro é quase inadmissível. Ainda assim, dentro da tatuagem existe um certo erro calculado, pequenos ajustes que podem ser feitos no processo. Mas, no geral, não podemos fugir do projeto inicial. Precisamos nos aproximar ao máximo daquilo que foi combinado no começo e do que o cliente quer levar na pele para a vida inteira.
Nas artes plásticas, principalmente nas telas, existe uma liberdade muito maior. A pintura permite acidentes, desvios de caminho e até erros que, muitas vezes, acabam transformando completamente a obra e gerando resultados surpreendentes. É interessante perceber como cada mídia artística tem sua própria lógica e seu próprio ritmo.
Vejo como exemplo, minha pintura, que acaba sendo completamente diferente das minhas tatuagens. Cada forma de arte tem suas particularidades, seus limites e suas possibilidades.


Roberto Valleck: Nélio, você é o idealizador do movimento, como você enxerga o papel dessa exposição na desconstrução do preconceito que ainda rotula o tatuador apenas como um “prestador de serviço” e não como um artista pleno?
Nélio: Valleck, com 25 anos de profissão, eu não diria que existe um preconceito, mas sim uma necessidade de diálogo. Tenho conversado muito com diversos tatuadores, inclusive ex-colegas, e com o Matai estamos cada vez mais próximos. Acredito que esse ‘rótulo’ negativo foi, em grande parte, culpa de uma parcela dos próprios profissionais.
Recentemente, a popularidade da tatuagem explodiu e o setor acabou se banalizando. Surgiu um número massivo de tatuadores sem experiência, sem técnica e sem o devido cuidado com a biossegurança, marcando peles eternamente de forma negligente. Com essa banalização, os preços se tornaram impraticáveis — algo como ’20 tatuagens por R$ 300′. O cliente, ao observar essa oferta, acaba desvalorizando o trabalho e o valor artístico da obra.
Sem generalizar, claro, pois existem profissionais de altíssimo nível. Mas muitos, para entrar nessa competição, reduziram o valor da sua arte e passaram a ser vistos como meros ‘prestadores de serviço’ e não como artistas. É aí que entra o Matai.
Hoje, com o marketing das redes sociais, muitos vendem o que não são. O cara pode não ter um trabalho legal, mas sabe fazer o marketing e convence o cliente, mas ele não tem a arte no sangue; é apenas um ‘caça-níquel’ (rsrs). O profissional autêntico preza pela criação, pelo resultado e pelo orgulho de ver sua obra eternizada. Para ele, a arte vem antes das questões financeiras; é sacerdócio, é sacrifício. E o sucesso é consequência disso.
Nosso movimento serve para valorizar a individualidade. Temos os ’10 Mandamentos Matai’, onde dizemos que não somos contra a Inteligência Artificial, mas acreditamos que ela não deve substituir a criação. Usar a IA como ‘muleta’ extrapola o limite da arte. Precisamos sair da bolha da tattoo para mostrar ao verdadeiro artista que seu talento agrega valor real ao mercado.
Estamos trabalhando em um movimento de ajuda mútua. O financeiro é importante, mas nossa filosofia é que o dinheiro é consequência do profissionalismo e da força do grupo. O movimento conta com o suporte de empresas como Canson e Sharpie, que acreditam no potencial de transformação dos nossos 86 artistas. É isso: estamos aí, transformando vidas.








13 Comentários
Evento foi realmente incrível, muita troca de experiências artísticas, bate papo e tinta! Parabens pela matéria e por cobrir o evento, excelente síntese! 🙏🏻🔨
Muito obrigado Luiz, sem sombra de duvidas, foi um evento gransioso.
Linda matéria,
Por mais eventos como esse, belíssima cobertura, parabéns
Linda matéria,
Por mais eventos como esse, belíssima cobertura, parabéns
É de fato extrema importância a cobertura de eventos como esse
Parabéns família MATAI !!!!
Matéria maravilhosa. Viva a arte, viva Matai 🙌🏼
Pingback: A maior mostra de artes plásticas produzida exclusivamente por tatuadores cariocas ocupou o Pura Vida Hostel, em Copacabana - Pura Vida Hostel - Copacabana, Rio de Janeiro
Cheguei no final da mostra, mas deu pra sentir a energia boa do evento e espero participar das próximas! Importante demais ter essa troca! Parabéns aos envolvidos!
Simplesmente a melhor exposição de arte!! Matéria fantástica que aborda justamente como foi lá, top!! Já estou ansioso pro próximo evento 👏👏👏
Eventos assim são essenciais não apenas pela troca de informação entre artistas participantes, como também, para trazer a arte ao público de fora, democratizá-la e mostrar o nosso “por trás das câmeras” na produção de cada trabalho! Foi tudo maravilhoso!
Foi muito bom, o evento. Gostei muito. Esperando pela próxima 💪
Tatuagem e Artes Plásticas formam os pilares da Educação e do compreendimento.