Por Alexandra Guerra
A morte de Robert Duvall, aos 95 anos, encerra um capítulo raro do cinema — o de um ator que não precisava levantar a voz para dominar uma cena. Bastava estar ali. A notícia foi confirmada no domingo (15), quando o artista morreu em sua casa, em Middleburg, na Virgínia, cercado pela discrição que sempre marcou sua vida fora das telas.
Em poucas horas, Hollywood reagiu não com formalidade, mas com emoção genuína. As palavras que surgiram não eram apenas homenagens protocolares. Eram relatos de convivência, respeito e, sobretudo, reconhecimento de que uma era havia terminado.
Al Pacino, seu parceiro em O Poderoso Chefão, resumiu o sentimento com a sobriedade que o momento exigia. Disse que o “dom fenomenal” de Duvall jamais seria esquecido. Não era exagero. Era constatação.
Adam Sandler, que contracenou com ele em Hustle (2022), lembrou do homem por trás do ator. “Engraçado, forte, generoso. Um dos maiores atores que já tivemos”, escreveu, ao compartilhar imagens de bastidores. Viola Davis foi além. Disse ter ficado “maravilhada” com sua capacidade de interpretar homens que carregavam poder e fragilidade ao mesmo tempo. Chamou-o de gigante.
Nenhuma palavra foi usada à toa.
O ator que dominava a cena sem pedir licença
Robert Duvall construiu sua reputação ao longo de seis décadas. Não foi um ator de excessos. Foi um ator de precisão. Sua arte não estava no gesto amplo, mas no detalhe. No olhar. No silêncio.
Foi assim em O Poderoso Chefão, quando deu vida a Tom Hagen, o consigliere que operava nas sombras, sem jamais perder o controle. Foi assim em Apocalypse Now, onde transformou um oficial militar em uma figura inesquecível com uma única frase — “Eu amo o cheiro de napalm pela manhã” — que atravessou décadas e se tornou parte da memória cultural.
E foi assim desde o início, em 1963, quando interpretou Boo Radley em O Sol é Para Todos. Naquele papel, não disse uma única palavra. Ainda assim, devastou o público.
Alec Baldwin recordou esse momento com precisão: não era o texto que importava, era a presença.
Um Oscar, sete indicações e uma carreira sem concessões
Duvall recebeu sete indicações ao Oscar e venceu em 1984, por Tender Mercies. O prêmio reconhecia não apenas uma atuação, mas uma filosofia de trabalho. Ele nunca buscou personagens fáceis. Preferia figuras complexas, contraditórias, humanas.

United Artists/Allstar/Alamy
Ao longo da carreira, transitou entre o cinema autoral e grandes produções sem perder coerência. Trabalhou com Francis Ford Coppola, interpretou líderes militares, homens comuns, criminosos, religiosos e figuras à margem da sociedade. Em cada papel, havia uma mesma obsessão: verdade.
Walton Goggins, que atuou com ele em The Apostle, disse que Duvall era mais que um ator. Era um mentor. Um guia. “Ele mudou minha vida”, escreveu.
Michael Keaton lembrou de uma tarde comum, sentados numa varanda, falando sobre cavalos. Era assim que Duvall operava: construía relações com a mesma naturalidade com que construía personagens.
O homem por trás do mito
Para o público, ele era uma lenda. Para Luciana Duvall, sua esposa, era algo mais simples e mais profundo.
Em uma declaração breve, ela disse que o mundo havia perdido um ator vencedor do Oscar, mas que, para ela, ele era apenas “tudo”.
Falou do amor dele pela arte, pela comida, pela convivência. Disse que ele entregava tudo aos personagens — não por obrigação, mas por convicção.
Esse era o núcleo da sua carreira, sem vaidade aparente, havia entrega.
O legado que não depende do tempo
Robert De Niro, ao reagir à notícia, disse apenas: “Que ele descanse em paz”.
Mas o cinema sabe que esse descanso é simbólico. Porque Duvall não pertence mais ao tempo biológico. Pertence ao tempo cultural.
Seu trabalho permanece intacto.
Tom Hagen continuará aconselhando nas sombras. Kilgore continuará caminhando entre helicópteros e fogo. Boo Radley continuará surgindo na porta, silencioso, transformando tudo.
A morte interrompe o homem. Mas não alcança o ator que Duvall se tornou.

