Por alguns minutos, a Marquês de Sapucaí voltou a pertencer inteiramente à Portela. Quando a águia cruzou o abre-alas em um voo cenográfico calculado, não era apenas um recurso visual. Era um símbolo. A escola mais vitoriosa da história do Carnaval carioca reaparecia diante do público com a altivez que construiu sua reputação ao longo de décadas — carregando nos ombros o peso de sua própria história e a expectativa permanente de redenção.

A Portela entrou na avenida com a segurança de quem conhece cada centímetro daquele chão. O samba encontrou resposta imediata na arquibancada, cantado com respeito e emoção por componentes e torcedores que reconheciam ali mais do que um desfile: reconheciam uma afirmação de identidade. O enredo, centrado em referências à ancestralidade e à espiritualidade, foi conduzido com rigor estético e fidelidade às tradições que transformaram a azul e branco em referência cultural do país.
As alegorias, grandiosas, impressionavam pelo acabamento e pela dimensão. Fantasias ricamente elaboradas transformaram a avenida em um mosaico vivo, onde cada ala parecia consciente de seu papel numa narrativa maior. A bateria, agora sob o comando do estreante mestre Vitinho, sustentou o andamento com precisão e personalidade, demonstrando equilíbrio entre respeito à tradição e busca por renovação.

A comissão de frente trouxe um dos momentos mais sensíveis da noite. Em um gesto de memória, homenageou o intérprete Gilsinho, cuja voz marcou gerações e cuja ausência ainda ressoa no imaginário portelense. Foi um instante de suspensão do tempo, em que o espetáculo deu lugar à lembrança — e o Carnaval reafirmou sua capacidade de preservar histórias mesmo quando seus protagonistas já não estão presentes.

Mas o Carnaval é também território de risco. E foi justamente no momento final, quando o desfile se encaminhava para um encerramento seguro, que a narrativa começou a se desestabilizar.
O último carro alegórico, que trazia a Velha Guarda — símbolo máximo da continuidade e da memória da escola — enfrentou dificuldades para acessar plenamente a pista. O deslocamento lento e irregular interrompeu o fluxo que até então havia sido conduzido com firmeza. Por alguns instantes, a Portela pareceu presa entre o que queria mostrar e o que conseguia executar.
Não foi a primeira vez que um carro com esse peso simbólico se tornou obstáculo em vez de consagração. O episódio evocou lembranças dolorosas de desfiles anteriores em que problemas técnicos custaram à escola frações decisivas na apuração.

Na prática, falhas como essa costumam ter impacto direto nas notas de evolução e harmonia — quesitos que avaliam justamente a fluidez e a coesão do desfile. Em uma disputa historicamente definida por décimos, qualquer interrupção pode significar a diferença entre o título e a frustração.
O contraste entre o início e o fim foi evidente. A Portela que abriu o desfile com autoridade não foi a mesma que deixou a avenida. A energia que mobilizou componentes e arquibancada no começo perdeu intensidade gradualmente, substituída por um esforço silencioso de manter o controle diante da adversidade.
Ainda assim, seria um erro reduzir o desfile ao problema final. A escola apresentou um trabalho visualmente consistente, tecnicamente elaborado e emocionalmente significativo. O que se viu foi uma Portela consciente de sua responsabilidade histórica, tentando equilibrar tradição e renovação em um cenário cada vez mais exigente.
Mas o Carnaval, como a própria história da escola ensina, não perdoa falhas — especialmente quando a expectativa é tão alta.
Ao deixar a Sapucaí, a sensação era ambígua. A Portela reafirmou sua grandeza, sua identidade e sua capacidade de emocionar. Mas também revelou, mais uma vez, como a linha que separa a consagração da perda pode ser tão estreita quanto o espaço entre uma alegoria e o tempo regulamentar.
Em Madureira e Oswaldo Cruz, onde a Portela nasceu e se sustenta, o desfile não será lembrado apenas pelo obstáculo. Será lembrado como mais um capítulo de uma história que nunca se encerra completamente — apenas se reinventa, ano após ano, sob o olhar atento de quem sabe que tradição também é resistência.

