A Marquês de Sapucaí, acostumada a transformar biografias em espetáculo, tornou-se também palco de uma disputa política que extrapolou os limites do samba. A homenagem da Acadêmicos de Niterói ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva desencadeou uma reação imediata de lideranças da oposição, que passaram a questionar não apenas o conteúdo do desfile, mas sua própria legitimidade jurídica e eleitoral.
O que, na concepção da escola, era uma narrativa sobre a trajetória de um operário que chegou à Presidência da República, foi interpretado por adversários como um gesto de natureza política, com possíveis implicações eleitorais.
O Partido Novo foi o primeiro a formalizar uma resposta institucional. Em comunicado público, a legenda anunciou que pretende recorrer à Justiça Eleitoral para questionar os efeitos jurídicos da homenagem. O presidente nacional do partido, Eduardo Ribeiro, afirmou que a sigla avalia ingressar com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), instrumento previsto na legislação para apurar eventuais abusos de poder político ou econômico. Segundo ele, a medida será considerada assim que houver formalização de eventual candidatura à reeleição.
No Congresso Nacional, as críticas assumiram tom ainda mais contundente. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) classificou o desfile como irregular e afirmou que recursos públicos estariam sendo utilizados de forma indevida. Em suas redes sociais, declarou que o episódio representaria uma forma de antecipação de campanha eleitoral, interpretação que não foi acompanhada, até o momento, por decisão judicial nesse sentido.
Outros parlamentares seguiram a mesma linha. O senador Sergio Moro (União Brasil-PR) afirmou que o desfile representaria uma forma de exaltação política incompatível com o momento pré-eleitoral. Já o senador Carlos Portinho (PL-RJ) levantou questionamentos sobre o uso de recursos públicos no financiamento das escolas de samba, um modelo que existe há décadas e envolve repasses oficiais destinados à realização do Carnaval como atividade cultural.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o senador Cleitinho (Republicanos-MG) também criticaram o episódio, argumentando que a homenagem poderia configurar promoção política antecipada. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), manifestou preocupação com o que classificou como exposição política em um evento cultural financiado com recursos públicos.
No centro da controvérsia está o financiamento do Carnaval. Parte dos recursos destinados às escolas do Grupo Especial provém de contratos de patrocínio público e privado, mecanismo que sustenta uma cadeia econômica que envolve milhares de trabalhadores e movimenta bilhões de reais todos os anos. No caso específico da Acadêmicos de Niterói, os valores recebidos seguem o mesmo modelo aplicado às demais agremiações, sem distinção formal baseada no conteúdo dos enredos.
Antes mesmo de a escola entrar na avenida, partidos políticos haviam recorrido ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com pedidos para suspender o desfile. A Corte rejeitou as solicitações, entendendo que impedir previamente a apresentação poderia configurar censura. O tribunal, no entanto, deixou aberta a possibilidade de análise posterior caso surjam elementos que indiquem violação da legislação eleitoral.
Especialistas em Direito Eleitoral ouvidos por diferentes setores da imprensa destacam que a legislação brasileira estabelece critérios específicos para caracterizar propaganda eleitoral antecipada. Entre eles, a presença de pedido explícito de votos ou promoção direta de candidatura. Até o momento, não há decisão judicial que enquadre o desfile nesses parâmetros.
A controvérsia revela um ponto sensível da democracia brasileira: o encontro entre cultura e política em espaços de grande visibilidade pública. O Carnaval, historicamente, sempre refletiu tensões sociais, disputas simbólicas e narrativas sobre o poder. Presidentes, líderes populares, figuras históricas e movimentos sociais já foram tema de enredos ao longo de décadas, sem que isso necessariamente configurasse infração legal.
Mas o contexto atual amplifica cada gesto. Em um ambiente político polarizado, a homenagem a uma figura em exercício do poder assume significado que vai além da estética e da tradição carnavalesca.
Enquanto a oposição busca respostas nas instituições, a decisão final sobre eventuais consequências jurídicas dependerá da análise técnica da Justiça Eleitoral. Até lá, o episódio permanece como um exemplo claro de como, no Brasil contemporâneo, o Carnaval continua sendo não apenas uma festa, mas também um espaço onde se projetam disputas, identidades e interpretações sobre o próprio país.

