Quando a Mangueira entrou na Marquês de Sapucaí, não trouxe apenas mais um desfile. Trouxe consigo um sentimento de pertencimento que ultrapassava qualquer limite geográfico. O enredo que uniu o povo “daqui e de lá” transformou a avenida em território de encontro, onde memória, identidade e imaginação caminharam lado a lado sob o verde e rosa que há quase um século define uma das maiores instituições culturais do país.
A escola apresentou um conjunto visual de grande impacto, sustentado por alegorias monumentais que confirmaram o estilo autoral do carnavalesco Sidnei França. Em seu segundo ano à frente da agremiação, ele construiu uma narrativa visual que apostou na imponência estética e na clareza simbólica, sem perder a conexão com a essência popular que sempre marcou a Mangueira.

Os carros alegóricos impressionaram pela escala e pelo acabamento, surgindo como estruturas vivas que avançavam pela avenida com precisão. Cada elemento parecia cuidadosamente posicionado para compor uma narrativa contínua, sem rupturas, reforçando a ideia de travessia cultural proposta pelo enredo.
No chão, a escola respondeu com segurança. A evolução fluiu sem falhas visíveis, sustentada por um conjunto de alas disciplinado e consciente de sua responsabilidade dentro da narrativa. O samba-enredo, embora não tenha figurado entre os mais celebrados da temporada pré-carnavalesca, encontrou consistência ao longo do percurso e foi conduzido com firmeza pela comunidade.

Coube ao intérprete Dowglas Diniz, agora assumindo sozinho a condução vocal da escola, a tarefa de sustentar o ritmo emocional do desfile. Sua atuação foi técnica e precisa, mantendo o equilíbrio necessário para que a escola atravessasse a avenida com estabilidade e confiança.
À frente da bateria, a rainha Evelyn Bastos reafirmou sua posição como uma das figuras mais sólidas do Carnaval contemporâneo. Sua presença não era apenas decorativa — era simbólica. Cada movimento dialogava com a percussão e com o público, criando um ponto de conexão direta entre a escola e a arquibancada.

Apesar da consistência técnica e da imponência estética, faltou à apresentação aquele momento de ruptura emocional que costuma transformar um grande desfile em um acontecimento inesquecível. A Mangueira foi segura, elegante e eficiente, mas não alcançou plenamente o nível de arrebatamento que marcou algumas de suas conquistas históricas.
Ainda assim, o conjunto apresentado é suficiente para recolocar a escola no centro da disputa. Em um Carnaval cada vez mais definido por detalhes mínimos, a ausência de erros graves se torna, por si só, um diferencial competitivo.
Ao deixar a avenida, a Mangueira não carregava apenas a memória de um desfile bem executado. Carregava a certeza de que continua sendo uma escola capaz de atravessar o tempo sem perder sua identidade. O verde e rosa não apenas passou pela Sapucaí — reafirmou sua presença como uma força viva, sustentada por uma comunidade que transforma tradição em permanência.
O sonho de retornar ao Sábado das Campeãs não é promessa. É consequência natural de uma escola que, mesmo quando não explode em emoção, permanece sólida o suficiente para continuar sendo protagonista.

