A Imperatriz Leopoldinense entrou na Marquês de Sapucaí na noite deste domingo (15) com a responsabilidade de traduzir em desfile a trajetória de um dos artistas mais inquietos da cultura brasileira. Aos 84 anos, Ney Matogrosso foi o eixo central de uma apresentação que buscou não apenas recontar sua carreira, mas expor as camadas de uma figura que atravessou décadas desafiando padrões e redefinindo o próprio lugar do artista no Brasil.
O enredo, intitulado “Camaleônico”, partiu de uma ideia simples e poderosa: Ney nunca foi uma coisa só. Desde os primeiros passos com os Secos & Molhados, nos anos 1970, até a carreira solo que consolidou sua identidade, o cantor construiu uma presença marcada pela transformação. E foi essa capacidade de mudar sem perder a essência que a Imperatriz levou para a avenida.

A comissão de frente deu o tom do que viria. Com recursos de ilusionismo e trocas rápidas de figurino, o artista surgia e desaparecia em diferentes versões de si. Em uma das cenas, um personagem atravessava um espelho e reaparecia com o visual emblemático do início da carreira. Em outra, surgia de numa estrutura cenográfica, como se emergisse de um tempo distante. O efeito não era apenas visual. Era simbólico. Ney não era apresentado como lembrança, mas como presença contínua
Ao longo do desfile, a escola apostou em uma estética rica em referências. Figurinos com plumas, macramê, brilhos e elementos que evocavam o universo performático do artista ocupavam a avenida com precisão. Havia menções ao movimento gay power, à androginia e às diversas fases de sua construção artística. O cuidado na execução revelava um trabalho de pesquisa atento, feito com participação direta do próprio Ney, que colaborou com a equipe criativa durante o desenvolvimento do enredo.

Entre os convidados que integraram o desfile estava o ator Jesuíta Barbosa, que interpretou Ney no cinema. Sua presença reforçava o alcance da figura homenageada e a forma como sua trajetória continua reverberando em novas gerações.
O público acompanhou com atenção cada setor, observando os detalhes e reagindo em momentos específicos, especialmente durante os efeitos visuais da comissão de frente e a passagem das alegorias mais impactantes. O desfile se sustentou pela coerência estética e pela narrativa clara, sem depender de efeitos excessivos para se afirmar.

Nos bastidores, a escola enfrentou um imprevisto. Um dos carros alegóricos, que trazia uma grande coroa cenográfica, teve a estrutura momentaneamente presa sob o Elevado Trinta e Um de Março, ainda na área de concentração. A equipe técnica precisou agir rapidamente para ajustar o mecanismo e permitir a passagem. O problema foi resolvido antes da entrada oficial na avenida e não comprometeu o andamento do desfile, mas evidenciou a complexidade logística envolvida na construção de alegorias dessa dimensão.
Quando atravessou a linha final, a Imperatriz deixou a sensação de ter apresentado um desfile fiel ao artista que escolheu homenagear. Não houve excessos narrativos nem tentativas de simplificar sua trajetória. O que se viu foi um retrato cuidadoso de alguém que construiu sua identidade em confronto com limites sociais e artísticos.

Na Sapucaí, Ney Matogrosso não apareceu como personagem distante. Surgiu como aquilo que sempre foi: um corpo em movimento, ainda em transformação.

