Por Julia Souza Lopes
O reconhecimento veio de fora, mas nasce de uma inquietação científica cultivada no Brasil. O físico e pesquisador Francisco Rodrigues, da Universidade de São Paulo (USP), acaba de ser premiado na Alemanha por um trabalho que pode mudar profundamente a forma como transtornos mentais são diagnosticados. Sua pesquisa utiliza inteligência artificial para identificar padrões cerebrais associados a condições como autismo, esquizofrenia e epilepsia — com níveis de precisão que já ultrapassam 90% em ambiente experimental.
Rodrigues foi um dos 20 cientistas selecionados para receber o prêmio Friedrich Wilhelm Bessel, concedido pela Fundação Alexander von Humboldt, uma das mais respeitadas instituições científicas da Europa. O reconhecimento inclui um financiamento de 60 mil euros, cerca de R$ 370 mil, e abre caminho para uma colaboração mais estreita com centros de pesquisa alemães.
O cérebro traduzido em dados
O trabalho parte de um princípio direto, mas tecnicamente sofisticado: transformar imagens do cérebro em dados interpretáveis por algoritmos. Utilizando exames como ressonância magnética e eletroencefalogramas, o pesquisador e sua equipe alimentaram sistemas de aprendizado de máquina capazes de identificar alterações específicas em regiões cerebrais.
Essas alterações funcionam como uma espécie de “assinatura neural” de determinados transtornos. A inteligência artificial aprende a reconhecer esses padrões e, a partir deles, consegue indicar com alto grau de confiabilidade a presença de uma condição mental.
“Hoje, o diagnóstico depende principalmente da observação clínica e do relato do paciente. Não existe um marcador biológico objetivo, como acontece com outras doenças”, explica Rodrigues. “A proposta é que, no futuro, um escaneamento cerebral possa ajudar a identificar essas condições de forma mais precoce e precisa.”
Os resultados da pesquisa já foram publicados em revistas científicas internacionais de alto impacto, como Nature e PLOS One, o que reforça sua relevância no cenário global.
O limite da medicina tradicional
O diagnóstico de transtornos mentais ainda é um processo baseado em análise comportamental, histórico clínico e testes subjetivos. Isso torna o processo mais lento e, muitas vezes, impreciso, especialmente nos estágios iniciais das doenças.
Segundo dados do Censo de 2022, cerca de 2,4 milhões de brasileiros vivem com transtorno do espectro autista. Outros 1,6 milhão de pessoas entre 15 e 44 anos convivem com esquizofrenia, e mais de 1,7 milhão de idosos enfrentam algum tipo de demência.
Mesmo diante desses números expressivos, a medicina ainda não dispõe de exames objetivos capazes de prever ou confirmar essas condições com base exclusivamente em evidências biológicas.
“A psiquiatria ainda não consegue prever com segurança se uma pessoa vai desenvolver esquizofrenia no futuro. A inteligência artificial pode ajudar justamente nesse ponto”, afirma o pesquisador.
A escassez de dados é o maior obstáculo
Apesar dos resultados promissores, a pesquisa ainda enfrenta um desafio estrutural: a falta de dados em grande escala. Para que os algoritmos aprendam com precisão, é necessário alimentar o sistema com milhares de imagens cerebrais — algo difícil de obter.
Exames como ressonância magnética exigem que o paciente permaneça imóvel por longos períodos, o que nem sempre é possível em pessoas com determinados transtornos. Além disso, o custo e a logística limitam o número de participantes.
Para contornar essa limitação, Rodrigues tem utilizado bancos de dados internacionais, especialmente dos Estados Unidos, além de expandir parcerias com instituições europeias.
A Alemanha como ponte para o futuro da pesquisa
É nesse contexto que a colaboração com a Alemanha ganha importância estratégica. O país dispõe de infraestrutura avançada para coleta de dados neurais, incluindo o uso de organoides cerebrais — estruturas conhecidas como “minicérebros”, cultivadas em laboratório a partir de células nervosas.
Esses modelos permitem observar a atividade neuronal em condições controladas e fornecem dados valiosos para o treinamento dos algoritmos.
Rodrigues já mantém colaboração com pesquisadores alemães desde o início de sua carreira acadêmica. Agora, com o prêmio recebido, ele passará um ano em Frankfurt aprofundando essa cooperação e ministrando cursos sobre sistemas complexos e aprendizagem de máquina.
Um futuro possível — mas ainda distante
Apesar do entusiasmo, o próprio pesquisador mantém cautela sobre a aplicação imediata da tecnologia. O uso clínico da inteligência artificial para diagnóstico ainda depende de validação científica mais ampla e de aprovação por órgãos reguladores, como a Anvisa.
A expectativa é que métodos baseados em escaneamento cerebral e análise automatizada possam se tornar ferramentas complementares ao diagnóstico clínico nas próximas décadas.
“Já sabemos que a tecnologia funciona em laboratório. O desafio agora é transformar isso em uma ferramenta segura, acessível e validada para uso na prática médica”, afirma Rodrigues.
Mais do que um prêmio individual, o reconhecimento internacional evidencia o papel crescente da ciência brasileira em um dos campos mais sensíveis e estratégicos da medicina contemporânea: a compreensão da mente humana.

