A expectativa era alta. Campeã da Série Ouro no ano anterior, a Acadêmicos de Niterói entrou na Marquês de Sapucaí com a responsabilidade de abrir a primeira noite do Grupo Especial e, ao mesmo tempo, sustentar um enredo que já carregava peso antes mesmo do primeiro surdo tocar. No centro da narrativa, uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, representado por uma escultura metálica de mais de 18 metros de altura que dominava o campo visual da avenida.
Era impossível não notar o investimento. A escola estava riquíssima em acabamento, impondo respeito já no abre-alas. As alegorias apresentavam estruturas robustas, esculturas bem definidas e soluções visuais ambiciosas. O metal, a iluminação e os volumes criavam uma estética de grandiosidade pouco comum para uma agremiação recém-chegada ao Grupo Especial. Havia, ali, dinheiro, planejamento e intenção de marcar território.

Mas, na Sapucaí, luxo não é sinônimo automático de emoção.
Uma história contada com precisão, e recebida com distância
O enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” percorreu, em sequência linear, a trajetória do presidente: a infância no sertão de Garanhuns, o deslocamento para o Sudeste, o chão das fábricas, a liderança sindical e a ascensão ao poder em Brasília. Cada setor foi organizado com clareza narrativa. O público conseguia entender o que estava sendo contado.
O abre-alas trouxe referências à seca nordestina, com carcarás e a figura de um menino Lula erguendo uma estrela azul no alto de uma árvore florida. Era uma imagem simbólica de origem e superação.
A comissão de frente optou por uma dramatização política explícita. Em cena, personagens representavam a disputa pela faixa presidencial, numa encenação que fazia referência direta a episódios recentes da política nacional. Ao final, um componente caracterizado como Lula recuperava a faixa e subia uma rampa que evocava o Palácio do Planalto.
A mensagem foi clara. Talvez clara demais.
O luxo que não virou arrepio
Apesar da imponência visual, a escola encontrou algo mais difícil de conquistar: a reação espontânea da arquibancada.
A Acadêmicos de Niterói passou com correção, organização e força estética, mas não levantou as vozes do público. O canto nas arquibancadas foi irregular, disperso, sem o efeito de contágio que transforma um desfile em experiência coletiva. Houve aplausos pontuais, mas faltou o elemento mais difícil de fabricar: identificação emocional imediata.
Em muitos momentos, o desfile pareceu passar morno, sustentado mais pela própria estrutura do que pelo apoio vindo de fora dela.

Na Sapucaí, o público não é espectador passivo. Ele responde, devolve energia, amplifica o que sente. Quando essa troca não acontece, o desfile permanece correto, mas não se torna inesquecível.
O presidente diante de sua própria alegoria
Lula chegou ao Sambódromo da Marquês de Sapucaí por volta das 20h30, sob esquema reforçado de segurança. Foi recebido pelo prefeito Eduardo Paes, pela ministra Gleisi Hoffmann e por outras autoridades no camarote da prefeitura.
Durante o desfile, em um gesto breve, deixou o espaço reservado e desceu até a pista para cumprimentar integrantes da escola. Reverenciou a comissão de frente, acenou para a bateria e retornou ao camarote.
A presença do homenageado diante da própria representação criou uma sobreposição rara entre realidade e alegoria.
A controvérsia que chegou antes do desfile
O enredo já vinha cercado de debate jurídico. Ações apresentadas ao Tribunal Superior Eleitoral tentaram impedir sua apresentação sob o argumento de possível propaganda eleitoral antecipada. A Corte rejeitou os pedidos, afirmando que impedir o desfile antes que ele ocorresse configuraria censura prévia.
A decisão garantiu a apresentação. Mas não eliminou o desconforto político que acompanhava a homenagem.

O Carnaval é território de liberdade criativa. Mas também é um espaço onde símbolos são interpretados de formas diferentes por quem observa.
O corpo que sustenta o espetáculo
Na dispersão, a realidade física do desfile se impôs. O calor intenso e o esforço prolongado afetaram componentes. Uma integrante precisou ser socorrida após apresentar sinais de mal-estar e foi retirada em cadeira de rodas. Outros também demonstravam exaustão ao deixar a avenida.
Essas cenas raramente fazem parte da memória oficial do desfile, mas revelam o custo humano por trás do espetáculo.
Entre o investimento e o impacto
A Acadêmicos de Niterói apresentou um desfile visualmente poderoso, tecnicamente consistente e financeiramente ambicioso. Mas o Carnaval não se sustenta apenas naquilo que se vê. Ele depende daquilo que se sente.
A escola contou sua história com clareza, ergueu alegorias monumentais e ocupou a avenida com autoridade estética. Ainda assim, encontrou uma Sapucaí mais observadora do que arrebatada.
No fim, ficou a sensação de um desfile grandioso na forma, mas contido na resposta popular — um espetáculo que impressionou os olhos, mas que, em muitos momentos, não conseguiu incendiar o coração coletivo da avenida.

