Lu Térgilêne
Hello, minhas Cherries! 🍒
Tem dias em que eu acordo sendo sete pessoas ao mesmo tempo. A versão da escola, que levanta a mão antes de falar. A da família, que engole opiniões para manter a paz. A do Instagram, que escolhe ângulo, legenda e silêncio estratégico. A do close, confiante até demais. A da call, que desliga a câmera para respirar. A do grupo do fandom, intensa, apaixonada, exagerada sem medo. E a da madrugada… aquela que ninguém vê, nem sempre entende, mas que sente tudo.
Ser adolescente hoje é viver como um camaleão social em tempo integral. A gente muda o tom de voz, a roupa, o jeito de escrever, o que pensa e até o que sente dependendo de onde está. Não porque somos falsos, mas porque o mundo exige adaptação constante. A diferença é quando essa adaptação deixa de ser proteção e vira prisão.
Os chamados camaleões sociais são especialistas em causar boa impressão. Eles observam, imitam, ajustam, calculam. Dizem o que esperam ouvir, riem quando não querem, concordam quando discordam. Tudo para serem aceitos. Tudo para não incomodar. O problema é que, no meio desse esforço todo, a identidade começa a se diluir. E ninguém avisa que isso cobra um preço alto.
O psicólogo social Mark Snyder explica que pessoas que vivem assim costumam ser profundamente infelizes. Faz sentido. Imagina passar a vida inteira monitorando cada gesto, cada palavra, cada reação. Pensar uma coisa, sentir outra e mostrar uma terceira versão ao mundo. É um cansaço que não aparece no corpo, mas pesa na mente. Um esgotamento silencioso que a gente normaliza porque todo mundo parece estar fazendo o mesmo.
Existe um filme antigo do Woody Allen, “Zelig” (1983), que fala exatamente disso. Zelig é tão sem personalidade que consegue assumir quaisquer que sejam os traços predominantes das pessoas com quem se relaciona. O personagem muda de aparência para se encaixar em qualquer ambiente. No fundo, o problema dele não é o poder de se transformar, mas a insegurança de não se sentir suficiente sendo quem é. Não é tão distante da nossa realidade. A diferença é que hoje não precisamos mudar o rosto, basta mudar o feed, o discurso ou a personalidade conforme o público.
Viver em sociedade exige algum nível de adaptação, isso é fato. Existe uma linha delicada entre ser flexível e virar personagem. Entre respeitar o outro e se apagar para caber. Ser pessoa é outra coisa. Ser pessoa é sustentar valores, mesmo quando eles não rendem likes. É respeitar diferenças sem abrir mão de quem se é. É entender que aceitação conquistada à base da negação própria nunca é inteira.
Por isso, alguns especialistas defendem que, em vez de camaleões, deveríamos tentar ser zebras sociais. A zebra não muda suas listras. Não importa onde esteja ou com quem esteja. Isso não a torna invencível, muito pelo contrário. Ela vira alvo fácil. E sim, no nosso mundo também existem predadores sociais prontos para atacar tudo o que foge do padrão. Mas quem fica são os que enxergam valor na autenticidade.
Talvez nem todo mundo vá gostar das nossas listras. Do nosso jeito de falar, da nossa pele, da nossa estética, das nossas ideias. E tudo bem. A tentativa de agradar a todos é uma das formas mais rápidas de se perder de si. Os poucos que ficam quando você é inteiro são os vínculos que realmente importam.
No fim, o que realmente importa não é quantas versões conseguimos sustentar, mas quantas delas são, de verdade, nossas. Crescer talvez seja isso: aprender quando adaptar e quando resistir. Tirar a máscara aos poucos. Entender que comunicação também é um ato político, inclusive a comunicação que fazemos com o mundo sobre quem somos.
Cada versão minha é um pedaço fiel da minha própria personalidade, afinal não nasci para agradar aos outros. Sou uma zebra. E ser zebra pode até dar medo. Mas viver como camaleão cansa demais e pode aos poucos matar seu verdadeiro ‘eu’. Bom mesmo é ser pessoa, não personagem.
Beijos e até já…
