Na Parábola dos Trabalhadores da Vinha, uma das muitas contadas por Jesus, vários trabalhadores são recrutados pelo dono da vinha, ao longo do, digamos, horário comercial, para trabalhar na colheita das uvas. Ao final do dia, esse proprietário resolve pagar o mesmo salário a todos. Não importa se a pessoa começou a trabalhar às 6h, 9h, 12h, 15h etc. Todo mundo recebeu como se tivesse começado cedo na função.
Só que a turma que iniciou às 6h não gostou e nomeou um representante para reclamar junto ao dono da vinha. Ele retrucou salientando que não estava prejudicando ninguém. Afinal, estava pagando o que havia sido acertado entre as partes, ou seja, quem começou na função às 6h da manhã aceitou a proposta e foi. Ele, o dono da vinha, pagou a mesma quantia aos que começaram depois porque quis e porque o dinheiro é dele. Simples assim. Esse consciente e justo senhor de terras arremata o ensinamento com uma frase que adoro: “Teu olhar é ruim porque sou bom?”
Essa pergunta atravessa o tempo. São vários os exemplos de gente abnegada e aguerrida que resolveu questionar injustiças sociais, preconceitos, sistemas opressores e acabou sendo perseguida, achacada e até assassinada. Os exemplos são muitos, sendo os de Gandhi e Martin Luther King os mais notórios, talvez por terem culminado em perda da vida física. No entanto, nomes como Madre Teresa de Calcutá, Chico Xavier e Irmã Dulce, embora tenham morrido de velhice, também não transitaram em brancas nuvens pelo terreno do bem. Sofreram toda sorte de perseguições, difamações, deboches, desconfianças etc. É sempre assim, muitos seres humanos – cruéis e despeitados – têm o olhar ruim porque existe gente disposta a pôr a mão na massa e mostrar o que é ser de fato um cristão na mais pura acepção da palavra.
É o que vemos acontecer atualmente com o Padre Júlio Lancelotti, de São Paulo (SP). Conhecido por desenvolver um belíssimo trabalho com moradores de rua, Pe. Júlio vem enfrentado a fúria de políticos de extrema-direita, higienistas, especuladores imobiliários e demais poderosos que veem o amor ao próximo como empecilho a seus projetos de poder e ganância. Para eles, cabe perguntar: “O olhar de vocês é ruim porque Padre Júlio Lancelotti é bom?”.
Por isso, neste Natal, em vez de mergulharmos na sanha consumista, lembremo-nos do aniversariante – Jesus Cristo – e vibremos para que Pe. Júlio, dileto representante do verdadeiro sentido do amor pregado pelo Rabi da Galileia, siga firme em suas convicções e em seu trabalho junto aos que têm fome do pão material e espiritual.
O Natal pode ser todo dia. Para tanto, lutemos para que todos tenham uma vida plena de recursos.
Marcelo Teixeira
