As mesas de fim de ano sempre foram mais do que um lugar para comer. Elas são território de afeto, memória, pertencimento e, muitas vezes, também de silêncio constrangido. Para milhões de brasileiros que convivem com a intolerância à lactose, a ceia pode ser um campo minado de dúvidas, dores abdominais e escolhas feitas mais pelo medo do que pelo desejo. Em um país onde o alimento é linguagem de afeto, não participar plenamente da refeição coletiva também é uma forma sutil de exclusão.
No Brasil, estima-se que cerca de 40% da população adulta apresente algum grau de intolerância à lactose, segundo dados de estudos gastroenterológicos amplamente difundidos em universidades e sociedades médicas. Ainda assim, a condição segue cercada por desinformação, mitos persistentes e um uso equivocado da enzima lactase, o que impacta diretamente a qualidade de vida, o bem-estar emocional e o convívio social.
Uma pesquisa de consumo realizada pela EMS entre 2023 e 2025 joga luz sobre essa realidade. O levantamento aponta que 74% das pessoas que utilizam lactase e ainda sentem sintomas são mulheres, majoritariamente na faixa dos 40 anos, com predominância de classe C e ensino médio. Gases, diarreia, dores abdominais e estufamento aparecem como queixas recorrentes. Mas os dados mais sensíveis vão além do corpo: medo de passar mal fora de casa, insegurança ao comer algo com lactose sem perceber e constrangimento em situações sociais fazem parte da rotina de quem convive com a condição.
Nas ceias de fim de ano, esse cenário se intensifica. Pratos tradicionais, sobremesas afetivas e receitas de família frequentemente levam leite, creme, manteiga e queijos. Diante da falta de informação clara, muitas pessoas acabam se restringindo além do necessário ou utilizando a lactase de forma incorreta, sem alcançar o alívio esperado.
Para ampliar o debate e devolver autonomia ao consumidor, a médica Rafaela Denardi, responsável pelos produtos da área de gastroenterologia da EMS, esclarece os principais mitos e verdades que ainda cercam a intolerância à lactose, um tema que é de saúde, mas também de comportamento, inclusão e qualidade de vida.
Intolerância à lactose é a mesma coisa que alergia ao leite
Mito.
Apesar de frequentemente confundidas, são condições completamente diferentes. A alergia à proteína do leite envolve o sistema imunológico e pode causar reações cutâneas, respiratórias e gastrointestinais. Já a intolerância à lactose é um distúrbio digestivo, causado pela deficiência ou redução da enzima lactase, responsável por digerir o açúcar do leite.
“Na intolerância, o problema é a digestão. O açúcar não digerido fermenta no intestino e causa desconforto. Na alergia, o corpo reage como se estivesse diante de uma ameaça”, explica Rafaela Denardi. As abordagens clínicas e alimentares, portanto, são distintas.
A intolerância pode surgir na vida adulta
Verdade.
Muitas pessoas convivem bem com a lactose durante a infância e adolescência e passam a apresentar sintomas apenas mais tarde. Isso ocorre porque a produção de lactase tende a diminuir naturalmente com o envelhecimento.
“É absolutamente comum que pacientes relatem o início dos sintomas na fase adulta. Não se trata de algo raro ou patológico, mas de uma adaptação do organismo ao longo da vida”, afirma a médica.
Tomar lactase pela manhã funciona para o dia inteiro
Mito.
Esse é um dos equívocos mais comuns identificados pela pesquisa da EMS. Cerca de 34% dos entrevistados acreditam que uma única dose diária é suficiente para todas as refeições.
“A lactase não tem efeito prolongado. Ela atua de forma imediata, durante a digestão do alimento ingerido naquele momento. Por isso, deve ser tomada sempre antes de cada refeição que contenha lactose”, esclarece Denardi.
É possível consumir derivados do leite sem desconforto
Verdade.
Com orientação adequada e uso correto da lactase, muitas pessoas conseguem manter uma alimentação variada e prazerosa, sem precisar excluir alimentos tradicionais.
“A enzima devolve liberdade alimentar. Quando usada corretamente, permite que o intolerante participe das refeições com mais segurança e tranquilidade”, diz a especialista.
Queijos duros e curados sempre causam sintomas
Mito.
Queijos como parmesão, muçarela e outros curados passam por processos que reduzem significativamente o teor de lactose. Isso faz com que sejam melhor tolerados por muitas pessoas.
“Conhecer as diferenças entre os tipos de queijo ajuda a reduzir restrições desnecessárias e amplia as possibilidades à mesa”, explica Rafaela.
A intolerância não é grave, mas afeta a qualidade de vida
Verdade.
Embora não seja considerada uma condição perigosa, a intolerância à lactose pode comprometer a rotina, gerar ansiedade alimentar e impactar o convívio social quando não é bem manejada.
“Quando o paciente entende como a lactose age no organismo e aprende a usar a lactase corretamente, ele recupera previsibilidade, conforto e segurança”, afirma a médica.
Informação como ferramenta de autonomia
Diante desse cenário, a EMS lançou iniciativas para combater a desinformação e apoiar quem convive com a intolerância. A empresa criou um hub de conteúdo dedicado exclusivamente ao tema, reunindo informações claras sobre sintomas, manejo da condição e uso correto da lactase. Também desenvolveu o clube de benefícios Laclovers, que alia educação contínua a descontos progressivos.
“Trocamos a narrativa de produto por cuidado. Criamos uma plataforma que acolhe, educa e recompensa”, afirma Cínthia Ribeiro, diretora da unidade de negócios OTC da EMS.
Em tempos em que saúde também é informação e autonomia, falar sobre intolerância à lactose é falar sobre o direito de participar da vida social sem medo, culpa ou dor. Especialmente nas festas de fim de ano, quando dividir a mesa é dividir histórias, afeto e presença, compreender o próprio corpo e ter acesso à informação de qualidade é um gesto de cuidado que começa no prato, mas se estende à dignidade.
Que as pessoas não se afastem da mesa por falta de informação.

