LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manú Cárvalho

Há filmes que não pedem atenção. Eles exigem escuta. Sorry, Baby, estreia de Eva Victor na direção de longas-metragens, pertence a essa categoria rara de obras que não se impõem pelo volume, pela urgência ou pelo choque explícito, mas pela maneira como se insinuam, ocupando espaços de silêncio, pausas desconfortáveis e emoções mal resolvidas. Será lançado nos cinemas em 11 de dezembro de 2025, com duração de 1 hora e 44 minutos, o filme chega como um contraponto direto ao excesso narrativo que domina grande parte do cinema contemporâneo. Aqui, menos não é apenas mais. É essencial.

Desde os primeiros minutos, fica claro que Eva Victor não está interessada em conduzir o espectador pela mão. O filme se apresenta de forma quase despretensiosa, com cenas aparentemente banais, diálogos fragmentados e uma câmera que observa mais do que interfere. Mas essa aparente simplicidade esconde uma construção emocional sofisticada, que exige do público algo raro hoje em dia: paciência e disponibilidade afetiva.

A história acompanha uma jovem mulher em um momento de transição emocional profunda, lidando com traumas que não são nomeados de imediato. Eva Victor, que também assina o roteiro e protagoniza o filme, constrói uma personagem marcada pela dificuldade de expressar dor. Não há grandes monólogos explicativos, nem cenas de catarse clássica. O sofrimento existe, mas se manifesta de forma difusa, em gestos interrompidos, frases que não se completam, olhares que desviam. É um retrato honesto de como o trauma muitas vezes se apresenta na vida real: confuso, silencioso e socialmente invisível.

Essa escolha narrativa é, ao mesmo tempo, o maior trunfo e o maior risco do filme. Sorry, Baby aposta em uma linguagem extremamente contida, o que pode afastar parte do público acostumado a conflitos mais evidentes e resoluções claras. Eva Victor parece plenamente consciente disso e, ainda assim, mantém sua proposta com rigor. O filme não acelera para agradar, não explica para facilitar e não dramatiza para comover artificialmente. Ele confia na inteligência emocional do espectador.

Como atriz, Eva Victor entrega uma performance de notável precisão. Sua personagem raramente verbaliza o que sente, mas tudo está ali, nos microgestos, na postura corporal, na forma como ocupa ou evita espaços. Há uma vulnerabilidade constante que nunca se transforma em autopiedade. Victor constrói uma protagonista que não pede empatia, mas a conquista justamente por sua recusa em performar a dor de maneira convencional.

Foto: divulgação/Mares Filmes/Alpha Filmes

Ao seu redor, o elenco funciona como extensões emocionais dessa trajetória fragmentada. Naomi Ackie surge como uma presença fundamental, oferecendo um contraponto de calor humano e escuta genuína. Sua personagem não é construída como salvadora nem como figura idealizada. Ela também carrega suas próprias hesitações, o que torna a relação entre as duas ainda mais real. Ackie trabalha com uma naturalidade impressionante, criando momentos de intimidade que parecem capturados, não encenados.

Lucas Hedges, por sua vez, traz uma performance marcada pela ambiguidade emocional. Seu personagem transita entre apoio e distância, carinho e incapacidade de compreender plenamente o que se passa. Hedges domina esse tipo de registro com segurança, mas aqui sua atuação é deliberadamente contida, quase retraída. O filme não lhe concede grandes momentos de destaque, o que pode soar frustrante, mas essa escolha parece intencional. Ele não está ali para resolver conflitos, mas para evidenciar a dificuldade de conexão.

Narrativamente, Sorry, Baby se estrutura de maneira fragmentada, com elipses temporais e cenas que parecem desconectadas à primeira vista. Eva Victor utiliza essa fragmentação como espelho do estado emocional da protagonista. O tempo não é linear porque a experiência do trauma também não é. O passado invade o presente sem aviso, e o futuro parece sempre suspenso. Essa abordagem confere ao filme uma qualidade quase sensorial, em que a compreensão vem mais pelo acúmulo de sensações do que pela progressão tradicional da trama.

Essa escolha estética e narrativa tem sido amplamente reconhecida como um dos grandes méritos do filme. Há uma coerência rara entre forma e conteúdo. A maneira como a história é contada reflete exatamente o que está sendo contado. No entanto, essa mesma opção também evidencia algumas fragilidades. Nem todos os arcos dramáticos recebem o mesmo grau de aprofundamento. Certas relações são apresentadas com potencial emocional significativo, mas acabam se diluindo antes de atingir pleno impacto.

Em alguns momentos, a sensação é de que o filme se aproxima de um conflito importante e, deliberadamente, recua. Essa recusa em explorar determinadas camadas pode ser lida como respeito ao silêncio da personagem, mas também gera pontas narrativas que permanecem em aberto de maneira excessiva. Não se trata de ambiguidade poética, mas de uma contenção que, por vezes, limita o alcance emocional de certas situações.

Foto: divulgação/Mares Filmes/Alpha Filmes

Essa característica fica especialmente evidente em alguns personagens secundários, que surgem como figuras promissoras, mas não ganham tempo suficiente para se desenvolver plenamente. O resultado é um filme extremamente consistente em sua linha central, mas que, em alguns momentos, parece hesitar em expandir seu universo emocional além da protagonista. A escolha é coerente com a proposta autoral, mas cobra um preço em termos de densidade narrativa global.

Ainda assim, o que Sorry, Baby perde em amplitude, ganha em intimidade. Eva Victor demonstra um domínio notável da linguagem cinematográfica, especialmente na direção de atores. As cenas mais marcantes do filme não são aquelas em que algo explicitamente acontece, mas aquelas em que quase nada ocorre. Um silêncio prolongado, uma conversa interrompida, um gesto de cuidado que não encontra resposta. São nesses espaços que o filme se instala.

Visualmente, a direção aposta em uma estética discreta, com enquadramentos que favorecem a proximidade emocional. A câmera raramente se afasta. Ela observa rostos, mãos, corpos em estado de espera. A fotografia evita contrastes exagerados e cores chamativas, reforçando a sensação de um mundo emocionalmente amortecido. Nada ali grita. Tudo sussurra.

A trilha sonora segue a mesma lógica. Utilizada com parcimônia, ela surge apenas quando necessária, sem sublinhar emoções de forma óbvia. O silêncio, novamente, é tratado como elemento narrativo. Eva Victor entende que, em um filme como esse, a música não deve conduzir sentimentos, mas respeitar o espaço interno dos personagens.

Um dos aspectos mais interessantes de Sorry, Baby é sua abordagem da dor feminina sem recorrer a clichês. O filme não transforma o sofrimento em espetáculo, nem oferece trajetórias fáceis de superação. A cura, aqui, não é um objetivo claro, mas um processo incerto. Eva Victor se recusa a oferecer respostas prontas ou finais reconfortantes. O que existe é a possibilidade de seguir, mesmo sem entender completamente o que ficou para trás.

Foto: divulgação/Mares Filmes/Alpha Filmes

Essa honestidade emocional é, sem dúvida, o maior trunfo do filme. Em um cenário cinematográfico frequentemente dominado por narrativas ruidosas e emocionalmente manipuladoras, Sorry, Baby aposta na contenção como forma de respeito ao espectador. É um filme que confia que o público saberá preencher os vazios com suas próprias experiências.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que essa mesma contenção pode gerar distanciamento. Há momentos em que o filme parece tão comprometido com o silêncio que evita confrontos emocionais mais diretos, o que pode deixar a sensação de que certas dores foram apenas tangenciadas. Para alguns espectadores, isso será uma virtude. Para outros, uma limitação.

No balanço final, Sorry, Baby se impõe como uma estreia autoral forte, sensível e profundamente coerente. Eva Victor demonstra uma clareza impressionante sobre o tipo de cinema que deseja fazer e sobre as histórias que quer contar. Mesmo quando tropeça em excessos de contenção ou deixa arcos em suspensão, o filme nunca perde sua honestidade.

Não é um drama pensado para grandes plateias nem para consumo rápido. É um filme que pede tempo, escuta e disposição emocional. E, para quem aceita esse convite, oferece uma experiência rara: a sensação de ter assistido a algo genuinamente humano.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐✨ (4,5/5)

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Jornalista, publicitária, carioca, ruiva, leonina, motoqueira, dona de pet e filha do Carvalho. Informo a galera sobre esportes, cultura pop e algumas críticas de cinema. Conto histórias que estão na rotina do cidadão, do meu jeitinho carioca.

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