O vento quente do deserto passa suave sobre a Baía de Doha enquanto o Museu de Arte Islâmica, em sua imponência geométrica, brilha como um farol cultural plantado entre o passado e o futuro. É ali, exatamente onde o Catar se abre ao mundo, que a memória de uma das mulheres mais influentes da história da moda volta a respirar. A primeira Gala do Franca Fund transforma a noite de domingo num espetáculo que mistura moda, política e ciência, com o tipo de elegância que Franca Sozzani sempre exerceu: sem pretensão, mas com impacto.

Franca, que comandou a Vogue Itália por quase três décadas, não era apenas uma editora sofisticada. Era uma incómoda contadora de verdades num sistema acostumado ao silêncio. A explorar racismo, ecologia, guerras, desastres humanitários e desigualdades pela lente da moda, ela fez da estética uma arma social. E é justamente essa herança que ecoa por todo o museu projetado por I. M. Pei, onde supermodelos, designers, membros da realeza e visionários da ciência se reúnem para honrar uma mulher que nunca temeu desafiar o establishment.

O tapete vermelho onde a moda fala

Quando Gisele Bündchen surge em lantejoulas de ébano que captam a luz como se fosse relâmpago, o museu inteiro parece prender o fôlego. Não é só glamour. É reverência. Ao lado dela, Anna Dello Russo, Giambattista Valli, Christian Louboutin, Miuccia Prada, Natalia Vodianova e Paloma Elsesser compõem um mosaico multigeracional que revela o que Franca construiu: uma moda que acolhe, provoca e transforma.

Pierpaolo Piccioli não esconde a emoção.

“Franca usou a moda para dizer algo diferente, tornando-a algo mais profundo. Falou de inclusão quando quase ninguém falava. Do meio ambiente quando era incômodo. Da diversidade quando era raro”, afirma.

Daniel Roseberry lembra seu primeiro encontro com ela aos 23 anos.

“Ela mudou a conversa. Mudou o curso da moda. Ela era um terremoto silencioso.”

Carla Sozzani, irmã da editora, olha ao redor e sorri com um cansaço emotivo.

“Ver esse mundo celebrando Franca e o que ela fez pelos jovens criadores me deixa muito feliz.”

Entre arte, flores e ciência

Ao entrar no museu, os convidados se encontram com obras que atravessam séculos e culturas. O cenário, assinado por Stefan Beckman, é um abraço árabe-ocidental: mesas em tons rosa e laranja, tapetes sobrepostos, flores que lembram o movimento das ondas e móveis de vime que imprimem leveza. A artista Golshifteh Farahani toca seu hang drum num tom hipnótico que parece conversar com a arquitetura ao redor.

Mais tarde, Elyanna, estrela pop palestino-chilena, incendiaria o palco com músicas cheias de alma e memória do Oriente Médio. É uma noite onde a arte se mistura à ancestralidade, e a moda cede espaço à cultura.

Mas o ápice não está no palco, nem nas roupas, nem nas celebridades. Está no propósito.

O legado que mira o futuro

O leilão da noite arrecada mais de 4 milhões de dólares. O dinheiro será destinado ao Franca Fund, criado em 2018 para financiar pesquisas inovadoras em genômica preventiva, conduzidas pelo oncologista Dr. Robert Green, de Harvard.

“Estamos analisando o DNA de recém-nascidos para prever doenças às quais podem ser vulneráveis”, explica ele. “É um trabalho que já sofreu muita resistência, mas o Franca Fund nos ajudou a avançar. Hoje lideramos pesquisas essenciais para o futuro da medicina.”

Francesco Carrozzini, filho de Franca, mira no horizonte quando fala.

“Queremos mudar a forma como o mundo enxerga prevenção. Carregamos informações dentro de nós que podem salvar vidas. Conhecimento é poder.”

A Sheikha Al Mayassa bint Hamad bin Khalifa Al-Thani encerra a noite com uma frase que poderia ter sido escrita por Franca:

“Ela foi uma joia rara. E seu legado permanece vivo.”

Moda, política, ciência e memória

O que se vê em Doha não é apenas mais uma gala luxuosa. É a confirmação de que a moda — quando guiada por mentes corajosas — pode abrir caminhos para discussões que atravessam fronteiras. Franca Sozzani fez isso a vida inteira. E agora, mesmo ausente, continua movendo estruturas.

É impossível não pensar no Brasil ao testemunhar essa celebração. Em como ainda engatinhamos quando o assunto é financiamento científico. Em como a moda brasileira insiste em ser inovadora apesar da precariedade. Em como mulheres que pensam grande continuam a ser as primeiras a enfrentar resistência. Franca sabia bem o que era abrir trilhas num terreno hostil.

E talvez essa gala seja um lembrete universal.

A moda não serve apenas para vestir o corpo. Serve para vestir ideias.
Revela quem somos, o que escondemos, o que tememos e o que desejamos mudar.
E quando se alia à ciência e à memória, vira uma força que o tempo não apaga.

No fim da noite, enquanto o museu respira em silêncio diante do Golfo Pérsico, é difícil não se perguntar:
se uma mulher como Franca Sozzani conseguiu mover o mundo pela beleza e pela verdade, o que nós — que herdamos suas lutas — ainda estamos esperando para mover?

A história continua. E a moda, mais uma vez, abre a porta.

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