O que nos mata não é o trabalho — é a pressa de existir sem viver.
Por Silver D’Madriaga Marraz
Há um tipo de cansaço que não se resolve com sono, férias ou pausas estratégicas. Um cansaço que permanece, que se arrasta entre os dias como uma sombra silenciosa. Ele não nasce do esforço físico, mas do esgotamento emocional, das pressões sociais difusas, do excesso de vigilância e da insuficiência de sentido. E, diante desse desgaste que nos atravessa por dentro, a pergunta que se impõe é inevitável: estamos cansados porque trabalhamos demais — ou porque vivemos de menos?
A exaustão generalizada é, hoje, talvez o mais evidente sintoma de que nossa civilização adoeceu. Não somos apenas indivíduos fatigados: somos uma sociedade inteira respirando em ritmo curto, vivendo à beira do colapso, funcionando no limite da própria humanidade. Somos ensinados a resistir, a acelerar, a produzir — mesmo quando o corpo pede trégua e a alma implora por silêncio. O mundo contemporâneo transformou o descanso em culpa e a pausa em fracasso. Assim, vamos nos encolhendo por dentro, até que o cansaço se torne nossa língua comum.
Esse cansaço não é moral, nem caráter fraco; é consequência. Consequência de um modelo de vida que exige mais do que devolve, que cobra mais do que entrega, que promete uma felicidade inalcançável enquanto arranca, pouco a pouco, aquilo que nos mantém inteiros: tempo, presença, sentido, vínculos. Viver assim é como correr uma maratona numa esteira infinita — não importa o quanto avancemos, continuamos no mesmo lugar, com a sensação de que estamos devendo algo a alguém, o tempo todo. É um tipo de prisão afetiva e mental.
Também é um cansaço político. Não porque pertença a um partido, mas porque tem origem nas formas como o poder nos atravessa: jornadas que se estendem além do justo, cidades que nos esmagam, desigualdade que rouba o direito de respirar, hiperconexão que coloniza a vida privada, meritocria tóxica que promete muito e entrega pouco. A exaustão é distribuída desigualmente: atinge mais os pobres, mais os racializados, mais os que sustentam a base de todas as estruturas sem jamais serem reconhecidos. Há quem esteja cansado — e há quem esteja exaurido.
E existe também um cansaço da alma. Um desgaste espiritual que nasce do excesso de violência simbólica, das notícias que ferem, das frustrações acumuladas, do sentimento de impotência diante de um mundo que parece correr mais rápido do que nossa capacidade de acompanhar. É como acordar todo dia com uma pequena ruptura interna que nunca chega a cicatrizar.
Mas é importante reconhecer que, apesar disso, o cansaço também é um pedido de socorro. Ele surge quando algo dentro de nós diz: “Assim não dá mais”. É o corpo nos chamando de volta para casa. É a alma nos puxando pela gola para nos lembrar que viver não deveria ser apenas suportar. O cansaço pode ser sintoma — mas também pode ser resistência. Ele denuncia a violência de um sistema que nos trata como máquinas e, ao mesmo tempo, abre a possibilidade de uma rebelião íntima: a de recusar a lógica do esgotamento como destino.
Talvez seja hora de reconsiderar o que chamamos de força. Força não é aguentar tudo. Força é saber parar. É reconhecer limites sem vergonha. É priorizar o que importa quando quase nada importa. É recuperar a presença, o vínculo, o direito de ser humano. Uma civilização saudável não se mede pelo quanto produz, mas pelo quanto permite que seu povo respire.
O cansaço que nos afeta não é fraqueza; é diagnóstico. Ele revela o que está errado, o que está excessivo, o que está faltando. E, se o enxergarmos com honestidade, ele pode ser o ponto de partida para uma forma mais humana de existir — uma vida em que a pausa é sagrada, em que o corpo é respeitado, em que o sentido é mais importante do que a velocidade.
Então, no fim, talvez a pergunta mais urgente não seja “por que estamos tão cansados?”, mas “quanto de nós ainda sobra depois desse cansaço?”. Reconhecer o desgaste é, paradoxalmente, o primeiro gesto de cura. É quando, enfim, percebemos que não precisamos seguir adoecendo junto com a civilização — podemos, pouco a pouco, aprender a respirá-la de novo.
