Quando a sirene soa mais alto que o plano, a operação vira espetáculo — e a segurança se torna miragem

Por Silver D’Madriaga Marraz

Na manhã em que a mobilização se tornou visível, mais de 2.500 agentes das forças de segurança estaduais adentraram os territórios dos Complexo do Alemão e Complexo da Penha, no Rio de Janeiro – numa ação que o governo chamou de “a maior da história das polícias do Estado”. A operação visava desarticular a facção Comando Vermelho (CV), cumprir mandados de prisão e busca em dezenas de comunidades resistentes ao controle estatal.  Mas, antes mesmo dos números parciais (mais de 60 mortos, mais de 80 presos) serem consolidados, a sensação que pairava sobre a cidade era a de que se tratava de uma resposta urgente, massiva – porém sem uma estratégia estrutural que garantisse que o resultado fosse além das manchetes.

Vamos analisar alguns pontos importantes:

1. A urgência do combate e o déficit de planejamento: o crime organizado que se espalha por favelas e periferias exige resposta. Mas o fato é que, segundo especialistas, operações pontuais como esta revelam um padrão de improvisação. A diretora do Instituto Fogo Cruzado observou que “ainda enfrentamos o crime organizado com o mesmo espetáculo bélico e improviso – não com política pública, estratégia ou inteligência”. Ou seja: o esforço é gigantesco, o aparato visível, o impacto imediato real — mas o “plano geral” parece invisível. O Estado ocupa as ruas por um dia, desencadeia confrontos, apreensões, mortes – e depois? O que vem depois desse choque de efeito?

2. Letalidade e vítimas invisíveis: Quando a ação atrai os holofotes, os corpos se acumulam. A operação deixou dezenas de mortos – civis, supostos criminosos, e policiais. Mas não são apenas os mortos que contam a história. Há a interrupção de vidas, o fechamento de vias, o transporte parado, o comércio suspenso – o cidadão comum se vê em um território de guerra. E sem garantias de que o território será mantido sob controle, ou que novas políticas de prevenção entrarão em cena.

3. O espetáculo político e o risco de resultado limitado: A megaoperação também se tornou palco de disputa política: o governo estadual reivindica protagonismo; o governo federal é cobrado por omissão. Mas quando a segurança pública vira espetáculo, com aplausos pela mobilização e comunicados sobre “maiores da história”, corre-se o risco de que o que fique seja apenas a foto do momento, e não a mudança de cenário. Operações grandiosas geram manchete – mas nem sempre geram transformação estrutural.

4. O que falta para não ser apenas fumaça: Para sair do modo “afogando incêndios” e entrar no modo “prevenção inteligente”, é preciso:

a) Diagnóstico real das rotas de poder, finanças e armas das facções – não apenas prendê-las, mas desgastar seu modelo. 

b) Plano de retomada territorial com serviços públicos, inserção social, reconstrução de laços civis – porque ocupar sem permanecer é abandonar. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal estipulou que o Estado do RJ deve apresentar esse tipo de plano. 

c) Integração real entre esferas federais, estaduais e municipais, com apoio logístico, dados unificados, coordenação de inteligência – o crime organizado não respeita fronteiras.

d) Transparência e controle de letalidade, para que a operação não sacrifique civis, e para que a força legal não se torne arbitrária.

5. Conclusão: A grandiosidade da megaoperação impressiona – o volume de tropas, os helicópteros, os bloqueios, a energia militar. Mas isso não basta. Se não houver plano, estratégia e continuidade, o risco é alto de que esse tipo de operação se transforme em evento simbólico, e não em marco de mudança real.

No fim das contas, o que conta não é quantas ruas são fechadas ou quantas prisões são feitas num dia –  mas se, no dia seguinte, a vida das pessoas melhora. Se escolas voltam a funcionar, se o medo recua, se os bairros deixam de ser territórios informais do poder paralelo. Sem esse resultado, a operação será mais um capítulo da história de segurança do Rio que se repete: armas, trocas de tiros, mortes, promessa de “resultado”, e retorno ao status quo. QUANDO O ESPETÁCULO TERMINA, O SILÊNCIO DA CIDADE VOLTA A GRITAR.

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