Vivemos tempos em que errar virou crime e perdoar, uma fraqueza.

Por Silver D’Madriaga Marraz

Nas praças digitais, onde tudo é público e nada é esquecido, o erro deixou de ser parte do aprendizado e passou a ser sentença. A cultura do cancelamento, nascida da justa indignação contra comportamentos opressivos e abusos de poder, rapidamente se transformou em um tribunal informal que julga sem processo e condena sem apelação. O que começou como instrumento de justiça social agora se confunde com linchamento simbólico.

O cancelamento nasce, em parte, do cansaço. Durante décadas, minorias foram silenciadas, desrespeitadas e invisibilizadas. As redes deram voz a quem nunca teve espaço para falar — e essa voz, por vezes, vem carregada de raiva acumulada. É compreensível. O problema é quando a indignação se torna punitiva, e o desejo de justiça se converte em desejo de destruição. Em vez de corrigir o erro, busca-se aniquilar o errante.

Nas redes, não há gradação de culpa. Um deslize, uma opinião impopular ou uma frase fora de contexto são suficientes para transformar uma pessoa em símbolo do que deve ser odiado. A lógica é binária: certo ou errado, puro ou impuro, vítima ou vilão. Mas a realidade humana é muito mais complexa — e a justiça que ignora a complexidade não é justiça, é vingança com verniz moral.

A cultura do cancelamento produz outro efeito silencioso: o medo. O medo de falar, de pensar, de discordar. A liberdade de expressão se vê encurralada entre o risco do ódio e o risco do ostracismo. Em vez de fomentar o debate, cria-se um ambiente de autocensura e superficialidade. As pessoas não dialogam mais para compreender, mas para sobreviver. E onde há medo de errar, não há espaço para crescer.

O perdão, valor cada vez mais escasso, tornou-se obsoleto. A sociedade que cancela não acredita na transformação; acredita na exclusão. Esquece que o aprendizado moral exige erro, queda e reconstrução. Sem o direito de errar, ninguém pode evoluir — e sem o perdão, o tecido social se rasga em fragmentos irreconciliáveis.

É evidente que há crimes que não podem ser relativizados e comportamentos que merecem responsabilização. Mas entre a impunidade e o extermínio simbólico existe um campo de reflexão e reeducação que estamos deixando de cultivar. O perdão não é esquecimento; é a escolha consciente de apostar na possibilidade de mudança.

O grande paradoxo é que a cultura do cancelamento se alimenta da mesma intolerância que pretende combater. Ao punir com ódio o ódio alheio, acabamos reproduzindo a lógica que diz combater. Tornamo-nos juízes uns dos outros, sem perceber que ninguém sai ileso de uma sociedade que transforma o erro em espetáculo público.

Talvez o caminho esteja em resgatar a dimensão humana da falha. Reconhecer que todos erramos — e que é justamente o reconhecimento do erro que nos torna capazes de mudar. A justiça sem empatia é tirania, e o ativismo sem compaixão é apenas mais uma forma de poder. Porque, no fim, o que salva uma sociedade não é a capacidade de punir, mas a coragem de perdoar.

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