Existe uma ilusão comum: acreditar que um bom texto nasce pronto, perfeito na primeira versão. Mas a realidade é mais simples e libertadora. O primeiro rascunho é apenas o começo, a matéria bruta. O texto só encontra sua melhor versão no processo de reescrita.
Muitas vezes a primeira versão não é a final, exatamente pela necessidade de ser lido, relido e quase sempre há algo que pode ser cortado, simplificado. Por exemplo, os “ques”, as orações subordinadas em ordem indireta, que facilmente podem ser reduzidas a uma única frase.
Claro que revisar também significa respeitar o sentido da frase e principalmente o estilo do autor. Exatamente por isso é um grande desafio revisar os próprios textos. Nada como um texto dormido para ser relido, claro quando o volume de palavras e o prazo permitem isso.
Quando mais o texto e a mente dormem, melhor para ver com clareza e principalmente exercitar a humildade e coragem. Humildade para reconhecer que sempre há o que melhorar; coragem para cortar excessos e reformular ideias.
Se ele puder ser visto por outrem, ainda melhor; aí o desafio é desapegar das intervenções e, ao mesmo tempo, aprender com elas. Até porque o outro vai enxergar muito melhor o texto do que quem o escreveu, afinal ele é um pedaço da alma em palavras.
Por mais que possa ser para outrem como ghostwriter e/ou mais técnico, ainda, sim, é uma parte nossa e com isso a parcialidade se instala como a dos pais que acreditam que a sua criança é sempre inocente mesmo quando não é.
Por isso, a versão final é sempre o somatório de várias outras, e o mais interessante é que independente de revisar o meu texto ou de um cliente, há um momento em que ele por si se basta.
É difícil explicar, mas nesse exercício de revisar e reescrever é como se as palavras e ideias se acomodassem por elas mesmas entre si e assim se tornam um único todo. Quando chego nesse nível com um texto meu, tempos depois só ajusto detalhes se pertinente, pois leio com inteireza.
Reescrever, revisar tem sim caráter técnico, eu adoro mexer na estrutura para além de ortografia, mas é muito mais um exercício de sentir o que as palavras dizem do que querer ordená-las. Reescreva, revise, mas antes de mais nada sinta! Só assim um texto fica pronto.

