A história das mulheres sempre foi escrita por mãos que não eram as delas. Mãos masculinas, hierárquicas, travestidas de santidade, que decidiram o que deveria ser lembrado e o que precisava ser apagado. Maria Madalena é o exemplo mais gritante dessa manipulação: a discípula mais próxima de Jesus, companheira em vida e guardiã de ensinamentos sobre amor e espiritualidade, foi reduzida pela Igreja Católica à figura de prostituta arrependida. Não por acaso. O que estava em jogo era o poder da mulher sobre seu corpo, sua voz e sua própria sexualidade.
A invenção da “pecadora”
Pesquisas recentes em história e teologia apontam que a associação de Madalena à prostituição não tem base bíblica. Foi uma construção política da Igreja no século VI, quando o Papa Gregório I fundiu três personagens diferentes em uma só, criando a imagem da “pecadora perdoada”. A estratégia tinha endereço certo: sufocar a simbologia da mulher que não apenas caminhava ao lado de Cristo, mas que também representava a face feminina da espiritualidade.
A antropóloga francesa Catherine Clément afirma:
“A Igreja jamais poderia sustentar a ideia de que o Messias tivesse uma companheira de igual importância. Para manter a estrutura patriarcal, era necessário apagar Maria Madalena ou desmoralizá-la.”
O corpo feminino como campo de batalha
O apagamento de Madalena consolidou um padrão que atravessa séculos: associar a sexualidade feminina ao pecado. Na prática, isso moldou um imaginário coletivo em que o corpo da mulher é controlado pelo moralismo religioso. A castidade de Maria, mãe virgem, foi exaltada como modelo, enquanto a potência de Maria Madalena foi demonizada.
Esse dualismo — santa ou pecadora — ainda hoje reverbera. Basta olhar para as estatísticas: segundo pesquisa da ONG Think Olga (2024), 72% das mulheres brasileiras já sentiram vergonha do próprio corpo devido a imposições sociais e religiosas. O resultado é devastador: medo, culpa, repressão e, muitas vezes, a crença de que o prazer feminino é secundário ou até mesmo proibido.
Consentimento e repressão: os ecos no presente
Quando falamos de sexualidade, não estamos tratando apenas de intimidade, mas de autonomia. A manipulação histórica do corpo feminino atravessa o tempo e chega até nós em situações cotidianas: mulheres julgadas por suas roupas, criminalizadas por decidir sobre a maternidade, desacreditadas quando denunciam violência sexual.
A psicóloga feminista Ana Lúcia Ferreira explica:
“A demonização da sexualidade feminina cria um terreno fértil para a manipulação psicológica. O medo de ser chamada de vulgar ou promíscua ainda faz muitas mulheres silenciarem seus desejos, anularem seus limites e aceitarem relações de controle.”
O resgate de Madalena no Sagrado Feminino
Hoje, movimentos ligados ao sagrado feminino buscam resgatar a verdadeira simbologia de Maria Madalena: a mulher curandeira, líder espiritual, guardiã da sabedoria do corpo. O interesse crescente em Madalena não é coincidência: ele reflete uma urgência contemporânea de libertar a sexualidade feminina dos grilhões da culpa.
Como afirma a escritora e teóloga Elizabeth Johnson:
“Recolocar Maria Madalena em seu lugar histórico é devolver às mulheres um pedaço roubado de sua história. É reconhecer que o sagrado também tem rosto feminino.”
Refletindo…
Ao olharmos para a aniquilação simbólica de Madalena, percebemos como a distorção de sua imagem serve de espelho para nossas próprias feridas coletivas. Enquanto a Igreja a reduzia à “pecadora”, o patriarcado escrevia as regras de um jogo em que as mulheres só podiam existir como santas obedientes ou pecadoras arrependidas.
Mas o tempo mudou. Hoje, quando uma mulher decide se reconectar com seu desejo sem culpa, quando diz “não” a relações de manipulação ou quando ousa ser “mal falada” para ser livre, ela está, de certa forma, retomando o bastão que Madalena foi obrigada a soltar.
E a pergunta que deixo ao leitor é: quantas vezes você já julgou, inconscientemente, a liberdade de outra mulher? Até quando vamos permitir que dogmas antigos determinem como as mulheres devem viver sua própria sexualidade?
