LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manu Cárvalho
É impossível sair ileso de sua delicadeza. (Foto: Reprodução / Festival do Rio)
Em tempos em que a cultura pop é dominada por produções padronizadas e internacionalizadas, é revigorante ver uma animação brasileira que não só abraça nossas raízes, mas as transforma em instrumento de resistência, poesia e pertencimento. “Abá e Sua Banda”, longa de Humberto Avelar, que estreou em 17 de abril de 2025, é exatamente isso: uma ode à arte como força de transformação e uma narrativa carregada de doçura, ritmo e consciência.
Com personagens inspirados em frutas tropicais e cenários que misturam natureza exuberante e cultura popular, o filme propõe uma aventura que fala diretamente ao coração, sem subestimar a inteligência das crianças nem desconsiderar a sensibilidade dos adultos.
Uma história embalada pela coragem de ser quem se é
Abá é um jovem príncipe do Reino do Pomar — um território fictício onde todos os habitantes são frutas antropomorfizadas. Ele deveria, em tese, se preparar para suceder o pai, o rígido rei Caxi. Mas o que Abá realmente deseja é ser músico. O sonho não é bem aceito pela família real, que enxerga a arte como algo trivial. Disfarçado de plebeu, o protagonista forma uma banda com seus amigos Ana, uma banana percussionista, e Juca, um caju animado e sonhador.
O trio busca participar do Festival da Primavera, a mais importante celebração do reino, ao mesmo tempo em que enfrenta as ameaças do autoritário Don Coco, que deseja banir toda forma de expressão artística e instaurar a uniformidade cultural. Entre canções, perseguições, diálogos emocionantes e descobertas pessoais, a jornada de Abá vai se revelando como um rito de passagem não apenas individual, mas coletivo.
Estética visual: o Brasil visto com olhos de aquarela
O que mais chama atenção logo nos primeiros minutos do filme é a riqueza visual. A fusão de animação 2D com técnicas em 3D é feita com uma elegância pouco vista até mesmo em produções internacionais. Os cenários são inspirados em paisagens tropicais brasileiras — com flora vibrante, detalhes de folhas, texturas de solo e céu que parecem extraídos de um caderno de pintura. É como mergulhar em uma versão encantada da Mata Atlântica.
As cores têm função narrativa: o azul predomina nas cenas do palácio, onde tudo é ordem e contenção; já os tons quentes — amarelos, vermelhos, verdes intensos — dominam os momentos de liberdade, arte e festa. Essa escolha estética ajuda o público a sentir o contraste entre repressão e liberdade, entre autoridade e criação.
Cada frase que diz carrega mais do que sentido — carrega afeto. (Foto: Reprodução / Metrópoles)
Trilha sonora: o coração do filme bate no compasso da música
Se há algo que torna “Abá e Sua Banda” inesquecível é sua trilha sonora. Com direção musical de André Mehmari e participações de Milton Guedes e Silvia Fraiha, a música é o fio condutor da narrativa — e não apenas um adorno.
As composições transitam por gêneros que vão do maracatu ao samba-reggae, passando por funk melódico, baião e cantigas de roda. Cada canção representa um momento interno dos personagens, funcionando como monólogos emocionais. A canção “Batida do Coração”, interpretada por Ana no momento de maior fragilidade da banda, é uma dessas surpresas: doce, delicada e potente.
As letras foram escritas de forma a atender tanto o público infantil quanto os adultos atentos, e há trechos que, de tão sensíveis, ficam na memória como poesia cantada. A trilha é, sem dúvida, uma das mais bem integradas ao roteiro em toda a história recente da animação nacional.
Vozes que emocionam: um elenco comprometido com a entrega
A dublagem brasileira é uma aula de como se fazer um trabalho de voz com alma. Filipe Bragança dá voz a Abá com ternura e inquietação, oscilando entre timidez e coragem com extrema naturalidade. Sua interpretação passa verdade, especialmente nas cenas em que o personagem precisa se impor ao pai ou vencer os próprios medos.
Zezé Motta, como Mãe Manga, entrega uma das performances mais tocantes do ano. Sua voz carrega ancestralidade, história e emoção. Ela é o símbolo da sabedoria que não vem dos livros, mas da escuta e da experiência. Cada frase que diz carrega mais do que sentido — carrega afeto.
Rafael Infante, no papel do vilão Don Coco, consegue imprimir carisma e ameaça em doses equilibradas. Ele não é um vilão de desenhos animados caricatural, mas um personagem com discursos sedutores que, quando olhados de perto, refletem ideologias perigosas que ainda existem fora da ficção.
A diversidade não é só visual: é musical, narrativa e política. (Foto: Reprodução / Plot Twist)
Uma animação para todas as idades — e para todos os tempos
É comum ver animações rotuladas como “filmes infantis”, mas “Abá e Sua Banda” transcende essa definição. O que o torna especial é sua capacidade de dialogar com questões adultas sem perder o encanto da infância. O roteiro traz referências à censura cultural, à desigualdade social e à importância da expressão artística como instrumento de resistência.
Sutilezas e metáforas que merecem ser notadas
A riqueza simbólica da narrativa é outro trunfo. O personagem do rei Caxi, por exemplo, é retratado como alguém que se esconde atrás da rigidez por medo de parecer vulnerável. Já Don Coco, ao tentar uniformizar os sons do reino, representa a tentativa de apagamento cultural que tantos povos enfrentam.
Há também uma linda metáfora sobre sementes: Mãe Manga diz que “cada música é uma semente que precisa de solo e tempo”. A fala ecoa no clímax da história, quando as canções de Abá se tornam ferramenta de reconstrução do reino — e, mais ainda, de reconexão entre pai e filho, entre o novo e o antigo, entre quem somos e quem escolhemos ser.
Ele não quer apenas entreter. Quer lembrar que a arte transforma. (Foto: Reprodução / O Liberal)
Representatividade que nasce da terra
Uma das grandes belezas de “Abá e Sua Banda” é o cuidado com a representatividade. Não só pela composição dos personagens, que incluem frutas de todos os tamanhos, cores e estilos — mas pelas vozes, pelos ritmos, pelos valores. A diversidade não é só visual: é musical, narrativa e política.
Esse cuidado, que passa pela escolha de elementos da cultura afro-brasileira, do Nordeste e do interior, transforma o longa em um verdadeiro mapa afetivo da identidade brasileira. E, ao fazer isso com leveza e afeto, ele nos mostra que nossos pequenos podem (e devem) crescer cercados de histórias que falem sobre eles — com respeito, beleza e verdade.
Abá e Sua Banda: Um filme que canta, encanta e permanece
“Abá e Sua Banda” é uma animação que chega devagar, como quem toca um tambor com calma. Mas vai crescendo, invadindo, emocionando. É impossível sair ileso de sua delicadeza. Seja pelo traço, pelas canções ou pelas mensagens, o filme deixa uma marca que perdura.
Ele não quer apenas entreter. Quer lembrar que a arte transforma. Quer dizer que todos temos uma voz — e que vale a pena usá-la. Quer mostrar que o Brasil é imenso, diverso e absolutamente belo, mesmo quando precisa enfrentar silêncios.
Se você está disposto a ouvir uma história que fala de identidade, coragem, tradição e reinvenção, “Abá e Sua Banda” vai ser mais do que um filme. Vai ser uma lembrança boa — daquelas que tocam e aquecem.
Nota final: ⭐⭐⭐⭐½ (4,5/5)
cultura brasileira
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