Desde criança, ouço homens dizendo que mulheres dirigem mal. Havia até a máxima “Mulher no volante, perigo constante”. No entanto, se pusermos os pingos nos is e observarmos atentamente, veremos que a grande proporção de acidentes graves e fatais é causada por homens.

Tenho um exemplo trágico em família. Um tio meu, irmão de minha mãe, perdeu a vida física aos 65 anos de idade, atropelado por um menor de 16 anos que foi passear com o carro da mãe – e com o consentimento dela, vejam vocês! Colheu meu tio na calçada, numa descida. Isso foi em fevereiro de 1996, uma semana antes do carnaval. A família foi condenada a pagar uma pensão à minha tia (que ficou viúva) até o dia em que ela morreu. E como ela durou até abril deste ano, foram quatro salários a menos no orçamento da família do garoto durante 28 anos, portanto. O pai do menor, aliás, não durou muito. Morreu poucos anos depois, vitimado por um câncer, talvez influenciado pelo desgosto causado por esposa e filho.

Nunca vi pessoalmente esse então moleque infrator que se transformou em assassino. Conhecidos em comum, porém, já me disseram que ele envelheceu 20 anos em cinco. O peso da consciência faz isso. Afinal, para aonde quer que ele vá, o remorso vai junto.

Recorro a este assunto porque me indigna sobremaneira as sequentes mortes que vêm acontecendo devido a homens que se comportam como eternos adolescentes e dirigem de forma criminosa. Os carrões importados e caríssimos que vêm se transformando em armas em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Teresópolis (RJ) estão aí para provar o que digo, basta acompanhar os noticiários.

Por que será que homens precisam dirigir feito loucos? Dinheiro que subiu à cabeça? Necessidade de afirmar a masculinidade com se ela estivesse ligada a violência, agressividade e afins? Mistura explosiva de volante com álcool, que é outra bengala na qual protótipos de homem se penduram para mostrar que são homens? Sensação de onipotência e invulnerabilidade por estarem com um possante caro na mão? Tudo isso junto e mais um pouco?

O mais curioso é que, depois que causam a morte ou a invalidez de alguém, correm para debaixo da cama; recorrem aos papais e mamães que, muitas vezes, creem que de fato os filhos estão acima da lei por terem dinheiro; tornam-se foragidos… Não contavam que provocariam algo tão ruim e que isso os jogaria, definitivamente, na vida adulta. Que modo terrível de se tornar adulto! Chegam cabisbaixos e com a cabeça coberta nas delegacias; temem a multidão, que os chama de assassinos; têm no semblante o horror da tragédia que causaram e que agora os perseguirá por toda a vida e decerto irão enfrentar o cotidiano nada alvissareiro das prisões.

A herança escravagista que ainda nos assombra também influi. Muitos empresários, comerciantes e afins ainda se portam como senhores da casa grande eternamente inatacáveis pela turma da senzala. Até a hora em que a justiça, por mais falhas julguemos que ela apresente, chega para enquadrar os filhinhos meliantes ao volante e mostrar que eles não estão acima da lei.

“Se for dirigir, não beba. Se beber, não dirija”, diz o slogan de conhecida campanha publicitária sobre segurança ao volante. Acrescento por minha conta: – Se for boçal, calhorda, irresponsável, arrogante, mimado e adulto infantilizado, por favor, fique longe do volante e vá tomar uma boa dose de tenência!

Marcelo Teixeira

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