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[CRÍTICA] O Brutalista: arquitetura, obsessão e os alicerces da ambição humana

Manu Cárvalho

Atualizado: 16 de mar.

LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manu Cárvalho


Nota: ★★★★½

O Brutalista é um filme humano e genial
O Brutalista é um filme humano e genial (Foto: Reprodução / Cinepop)

Desde os primórdios do cinema, a arquitetura tem sido usada como metáfora para estados emocionais e psicológicos. Em O Brutalista, dirigido por Brady Corbet, essa relação se intensifica ao ponto de se tornar a espinha dorsal de uma narrativa densa e visualmente impactante. O filme, estrelado por Adrien Brody, é uma exploração das pressões, sacrifícios e obsessões que moldam a mente criativa em busca da grandeza.


A ascensão e queda de um visionário

Brody interpreta Lázsló Toth, um arquiteto imigrante europeu que chega aos Estados Unidos na década de 1950 em busca do sonho americano. O que começa como uma história de superação rapidamente se transforma em uma jornada angustiante sobre os limites da ambição e o preço da genialidade. À medida que Toth se vê envolvido em um projeto monumental, a linha entre inspiração e obsessão começa a se desfazer, revelando as sombras que assombram sua mente e seu passado.


Vicky Krieps, no papel de sua esposa, ajuda a ancorar o filme em uma perspectiva mais íntima. Sua performance é um contraponto essencial ao arco de Toth, ilustrando o impacto emocional da busca incessante pela perfeição e a solidão de quem é deixado para trás no caminho da grandiosidade. A relação entre os dois é construída com profundidade, e Krieps traz um olhar de humanidade que muitas vezes falta ao protagonista, fazendo-nos questionar se a genialidade de Toth vale os sacrifícios exigidos.

Um gênio incompreendido
Um gênio incompreendido (Foto: Reprodução / ArchDaily Brasil)

Visual e atmosfera: um brutalismo cinematográfico

O filme não se chama O Brutalista à toa. A estética brutalista não está apenas na narrativa, mas na própria construção visual do longa. Corbet utiliza uma fotografia fria e simétrica para traduzir a rigidez e o peso da arquitetura modernista. O design de produção, com seus edifícios imponentes e cenários austeros, cria um ambiente claustrofóbico, onde cada espaço reflete o estado psicológico do protagonista. O concreto cinza, os interiores cavernosos e a iluminação dura remetem diretamente à filosofia brutalista, onde a funcionalidade se sobrepõe ao conforto.


A cinematografia aposta em enquadramentos geométricos e composições meticulosamente calculadas, fazendo do filme uma experiência visual tão imponente quanto as estruturas que Toth projeta. A trilha sonora minimalista reforça a sensação de opressão, com tons graves que ressoam como o eco de concreto e aço sendo moldados para atender a uma visão inflexível. A paleta de cores monocromática, pontuada por pequenos detalhes de calor, representa o embate constante entre o humano e a construção, entre a emoção e a frieza do design.

Brady Corbet como Lázsló Toth
Brady Corbet como Lázsló Toth (Foto: Reprodução / Techmundo)

O dilema da genialidade

O coração do filme reside na pergunta: até onde vale a pena ir pela arte? O Brutalista desafia o espectador a considerar os custos de uma obsessão criativa, abordando as escolhas morais, os relacionamentos destruídos e os limites entre inovação e autodestruição. O filme não se limita a mostrar um gênio incompreendido, mas questiona a narrativa do arquiteto visionário que sacrifica tudo em nome da perfeição.


Toth não é um personagem fácil de simpatizar. Seu desejo inabalável de deixar um legado o transforma em alguém indiferente à dor dos outros, incluindo aqueles que mais o amam.

Há momentos em que sua obsessão parece justificada, pois sua visão arquitetônica de fato desafia convenções, mas há outros em que fica claro o custo humano de sua ambição desmedida. Esse embate torna o filme ainda mais instigante e provoca debates sobre o papel da arte e o impacto de suas criações no mundo real.


Influências e paralelos

O filme carrega influências claras de cineastas como Stanley Kubrick e Andrei Tarkovsky, tanto na estética quanto na forma de construir sua narrativa. A abordagem visual meticulosa, a trilha sonora quase hipnótica e os diálogos introspectivos fazem com que O Brutalista se aproxime mais de uma experiência sensorial do que de um drama convencional.


A história de Lázsló Toth também remete a figuras reais da arquitetura, como Le Corbusier e Louis Kahn, cujas obras marcaram a estética brutalista, mas cujas vidas foram repletas de desafios pessoais e contradições. A obsessão pelo legado e a busca por uma estética pura frequentemente levaram esses arquitetos a negligenciar seus próprios limites, um dilema que o filme capta com precisão e intensidade.

História e roteiro impecável, fazem O Brutalista ser um filme incrível!
História e roteiro impecável, fazem O Brutalista ser um filme incrível! (Foto: Reprodução / Coletivo Crítico)

O peso da arquitetura como metáfora

A arquitetura sempre foi um reflexo da sociedade e de seus valores. Em O Brutalista, ela representa não apenas a busca pelo progresso, mas também os sacrifícios exigidos por essa busca. Cada edifício projetado por Toth parece ser uma extensão de sua alma, ao mesmo tempo grandioso e desprovido de calor humano. É um espelho da modernidade e de sua promessa de transformação, mas também um símbolo de isolamento e desumanização.


O filme também questiona a ideia do arquiteto como um criador absoluto. O personagem de Brody se vê em constante conflito com clientes, investidores e até mesmo operários, refletindo as tensões reais entre a visão artística e as necessidades práticas. Ele acredita que sua obra deve prevalecer sobre tudo, mas o mundo à sua volta exige concessões, levando a embates que testam seus limites.

Sentimentalismo e intensidade
Sentimentalismo e intensidade (Foto: Reprodução / Cinepop)

Uma reflexão final

Com um elenco afiado, uma estética impactante e uma abordagem filosófica profunda, O Brutalista se destaca como um drama psicológico intenso e provocador. Não é um filme que entrega respostas fáceis, mas sim uma experiência que convida à contemplação. No final, resta a pergunta: as grandes obras são erguidas sobre sonhos ou sobre os escombros daqueles que as construíram?


Corbet cria um filme que exige do espectador, tanto em termos emocionais quanto intelectuais. Não se trata apenas de uma cinebiografia fictícia, mas de um estudo sobre a psique humana e as forças que impulsionam a criatividade a limites extremos. O filme não glamouriza a genialidade, mas a expõe com todas as suas falhas e consequências.


O impacto de O Brutalista se estende além de sua trama. Ele provoca discussões sobre a responsabilidade do artista, sobre a linha tênue entre inspiração e obsessão, e sobre o preço da ambição desenfreada. É um filme que desafia, inquieta e, acima de tudo, permanece na mente do espectador muito depois dos créditos finais.


Se há uma certeza ao final da projeção, é que O Brutalista não é apenas um filme sobre arquitetura. É um filme sobre o custo de construir algo grandioso em um mundo que nem sempre está pronto para receber tais criações.

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