A mercantilização dos movimentos culturais e as resistências possíveis
A ideia inicial desse texto surgiu quando vi que a Maison Jean Paul Gaultier produziu um bloco de carnaval em Santa Teresa, bairro tradicional no circuito de carnaval do Rio de Janeiro, para promover seu último lançamento em perfumaria. Achei um fenômeno curioso, que despertou minha curiosidade para entender o que motivou essa estratégia e como a marca de luxo poderia se relacionar com o carnaval carioca. A musa do bloco foi Paolla Oliveira, figura de grande visibilidade nesse carnaval, entre outros artistas e influenciadores. Como sempre faço por aqui, busco contextualizar minhas reflexões culturais e de moda em fatos históricos, trazendo um pouco de perspectiva socio-histórica daquele tema abordado. Portanto, precisei de uma pesquisa rápida para entender as origens do carnaval como um ritual simbólico dos povos antigos e o que se tornou hoje, em 2025, com os fenômenos da globalização e do Capitalismo selvagem.
Os primeiros registros dessas festividades pagãs datam da Antiguidade, como rituais de colheita, fertilidade e renovação, celebrando o fim do inverno e início da primavera. No Egito, cultuava-se deus Osíris; na Grécia, cultuava-se Dionísio, deus do vinho e do teatro, em grandiosos festivais e desfiles; em Roma, Saturnálias e Lupercálias, festivais em que escravos e senhores trocavam de papéis e havia grande liberdade social. Em terras indígenas, em nosso território, há registros de festividades similares de rituais e ritos de passagem simbólicos e espirituais. Observando todas essas manifestações culturais em diferentes tempos históricos, povos e civilizações, podemos concluir que é tão natural ao ser humano e para o desenvolvimento de sua psique, no que chamamos evolução da espécie, criar esses rituais coletivos de música, dança, suspensão da realidade cotidiana e inversão de papéis, em máscaras, fantasias, penas e plumas, representando animais, deuses e fenômenos da natureza, em elementos simbólicos, como uma forma de conhecer a si. Eu sei, estes são fatos bem conhecidos e confirmados pelos estudos antropológicos. Poderia, ainda, citar Freud, o propagador da Psicanálise, quando este se refere ao sentimento oceânico do mundo, em que buscamos por diversos meios recuperar o sentimento uno de um com o Todo, o pertencimento universal à natureza.
Pensemos, agora, no Carnaval como fenômeno cultural contemporâneo. Além das tradições herdadas pelos povos originários, ainda muito forte nos festejos do Norte do país - uma feliz consequência da concentração de investimento econômico e colonizatório nas capitais do sudeste - também temos a influência europeia, trazida pelos portugueses nesse processo de colonização, em bailes de máscaras. Já a influência africana é central no desenvolvimento do Carnaval como conhecemos hoje. Desde seus instrumentos trazidos de África, até seus ritmos e danças, até a reencenação de ritos de reis e rainhas africanos em seus trajes reais, de estampas, volumes, pedrarias e penas. Não é coincidência que o samba e o início do carnaval, como conhecemos hoje de escolas de samba, cortejos e barracões, surgem no Rio de Janeiro, considerado o maior porto receptor de africanos escravizados do mundo. Surgindo como movimentos de resistência após a abolição do regime escravocrata. De extrema importância também aos movimentos Queer, como possibilidade de expressões de gênero e sexualidade diversos aos padrões binários de uma sociedade colonizada patriarcal heteronormativa.
Imagem: reprodução/acervo Instituto Moreira Salles
Fazendo uma breve comparação à minha experiência como foliã, na infância amava os bailinhos de carnaval da escola, as fantasias temáticas do É o Tchan acompanhando seus últimos lançamentos para os bailes de carnaval de rua do bairro, que ainda era possível a presença de crianças, idosos e qualquer um que se aventurasse, até um bailinho feito em casa por minha mãe. Turmas de Bate-bola e Gorilas de sacos plásticos eram figuras certas nos preparativos das festas. Já na adolescência e início da vida adulta, viajando e frequentando blocos maiores do Centro e Zona Sul do Rio, começo a ver esse esvaziamento simbólico que hoje é a regra, o lúdico das fantasias elaboradas de significação subjetiva perde espaço para biquínis, tules, paetês e purpurinas, alguns acessórios aqui e ali como lembrete.
Em 2025, além da crise climática que torna quase impossível usar peças de roupa mais elaboradas, vemos o fenômeno da globalização e da mercantilização dos movimentos culturais em produtos comerciais. Como em todas as esferas em que o Capitalismo atua, os rituais simbólicos e espirituais foram transformados em mercadoria, invertendo os valores que esses eventos carregam para a formação do ser humano. O que, antes, eram rituais catárticos coletivos de liberação egóica e encontro com o Todo, hoje é a fuga do cotidiano massacrante pelo sentimento de escapismo e, não, de pertencimento. O uso abusivo de drogas e álcool, normalização de hábitos autodestrutivos, hipersexualização dos corpos, violência de gênero e toda sorte de pequenas violências, perdidos em uma grande confusão de corpos purpurinados e hits de carnaval que nada significam. Hoje, vemos a resistência nos enredos e barracões das Escolas de Samba, que insistem na celebração de seus ancestrais, orixás e figuras importantes para a cultura afro-brasileira. Em tempos de conservadorismo e movimentos reacionários perigosos, é aí que reside nossa esperança de recuperar nossas tradições tão ricas de significados e alegrias verdadeiras.
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