[CRÍTICA] Anora: um conto moderno que encanta e provoca reflexões
- Manu Cárvalho
- 6 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 14 de fev.
LUZ, CÂMERA, CRÍTICA! — Por Manu Cárvalho Nota: ★★★★½

Logo nos primeiros minutos de “Anora”, dirigido pelo sempre refinado Sean Baker, é impossível não se sentir atraída pela energia e pelas nuances de sua protagonista. Mikey Madison, no papel de Ani, nos guia por uma jornada que mistura sonho e realidade de forma quase mágica, mas sem perder de vista a dureza do mundo que habita. O filme, vencedor da Palma de Ouro em 2024, explora temas como ambição, poder e vulnerabilidade com a sensibilidade característica de Baker, mas também carrega imperfeições que, de alguma forma, tornam a experiência mais humana.
A história: uma jornada de sonhos e desilusões
Ani, interpretada com intensidade por Mikey Madison, é uma dançarina exótica de Brighton Beach, em Nova York, que sonha com uma vida além das luzes de neon e da fumaça dos clubes noturnos. Ela é uma sonhadora, mas também prática, movida pela necessidade de sobreviver em um mundo que não oferece muitas saídas. Sua vida toma um rumo inesperado ao conhecer Ivan (Mark Eydelshteyn), o filho mimado de um oligarca russo.
A relação entre os dois, inicialmente transacional, rapidamente se transforma em um casamento impulsivo e cheio de promessas. Mas, como em qualquer conto de fadas contemporâneo, há um preço a ser pago. A família de Ivan não aprova a união, e Ani se vê perseguida e, eventualmente, abandonada em um cenário tão brutal quanto libertador. Aqui, a narrativa de Baker brilha ao desconstruir os clichês da "mocinha salva pelo príncipe", mostrando que as escolhas de Ani – por mais caóticas que possam parecer – pertencem apenas a ela.

Mikey Madison: uma protagonista brilhante
Mikey Madison rouba a cena em cada momento. Sua Ani é ao mesmo tempo forte e vulnerável, charmosa e realista. Há algo magnético em sua presença que faz com que torçamos por ela mesmo quando suas escolhas parecem imprudentes. É raro encontrar uma personagem feminina tão multifacetada e tão bem interpretada. Madison dá vida a Ani com uma honestidade que é crua e, por isso mesmo, impossível de ignorar.
Já Mark Eydelshteyn, como Ivan, entrega uma performance sólida, mas não tão marcante. Ele encarna o arquétipo do homem privilegiado que vive sem noção das consequências de suas ações. Ainda assim, sua química com Madison funciona o suficiente para que a relação deles seja crível, ainda que desconfortável.
Os coadjuvantes também merecem menção, especialmente Yura Borisov, que interpreta Igor, um capanga da família de Ivan. Ele traz camadas inesperadas a um personagem que, em mãos menos habilidosas, poderia ter sido apenas um estereótipo.
Direção e estética: Sean Baker em sua melhor forma
Sean Baker é um mestre em transformar o ordinário em algo extraordinário, e “Anora” não é exceção. Visualmente, o filme é um deleite. As luzes de neon dos clubes noturnos contrastam com os tons frios e sombrios das ruas de Nova York, criando uma estética que reflete perfeitamente o estado emocional de Ani. É um mundo ao mesmo tempo fascinante e opressor, onde os sonhos são construídos e destruídos na mesma velocidade.
Baker também utiliza sua habilidade para capturar os detalhes do cotidiano de maneira visceral e autêntica. Desde as conversas nos bastidores do clube até os momentos de silêncio em um apartamento apertado, cada cena é carregada de um realismo que nos faz sentir como se estivéssemos vivendo aquela experiência junto com os personagens.

Narrativa: um equilíbrio entre ousadia e falhas
Se há algo que “Anora” faz bem, é subverter expectativas. Não espere um conto de fadas tradicional, porque Baker está mais interessado em explorar as desilusões que vêm com a busca por uma vida melhor. A narrativa desafia as convenções do gênero e, em vez de oferecer respostas fáceis, nos deixa refletindo sobre as escolhas de Ani e suas consequências.
No entanto, o filme não é perfeito. Em alguns momentos, senti que a história se alongava mais do que o necessário. Algumas cenas parecem repetir informações já compreendidas, o que acaba prejudicando o ritmo. Além disso, embora o roteiro seja eficaz na construção de Ani como personagem, ele deixa outras figuras importantes – como Ivan e Charlotte, uma amiga de Ani – um pouco subdesenvolvidas. Isso não chega a comprometer a experiência, mas faz com que o filme perca a oportunidade de explorar relações que poderiam adicionar ainda mais profundidade à trama.
O que “Anora” representa
O que mais me chamou atenção em “Anora” é como o filme aborda as expectativas e ilusões que a sociedade impõe às mulheres. Ani é uma personagem que luta constantemente contra as narrativas impostas a ela, seja como dançarina, esposa ou mãe.
Ela é imperfeita, comete erros, mas nunca deixa de ser dona de sua própria história. É um retrato poderoso e honesto da busca por independência em um mundo que nem sempre está disposto a concedê-la.
Além disso, a obra também é um comentário sobre as dinâmicas de poder nas relações românticas e sociais. Baker, com sua habilidade característica, nos mostra como o privilégio e a desigualdade moldam essas interações de maneira sutil, mas eficaz.

Conclusão: uma história de resiliência e realismo
“Anora” é um filme que provoca, emociona e desafia. Ele não oferece finais fáceis, mas entrega algo muito mais significativo: uma jornada crua e honesta de autodescoberta e resiliência. Mikey Madison brilha intensamente, sustentando uma narrativa que, embora imperfeita, é envolvente e cheia de significado.
Sean Baker reafirma sua habilidade de contar histórias que são tão específicas quanto universais, trazendo à tona questões que ressoam muito além da tela. Para quem procura um filme que desafia convenções e convida à reflexão, “Anora” é uma escolha certeira.
Ao final, saí do cinema não apenas impactada pela força da narrativa, mas também inspirada pela mensagem que o filme transmite: por mais difícil que seja o caminho, a jornada para encontrar sua própria voz sempre vale a pena.
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