Uma crônica sobre o Brasil que não se vê, nem se quer ver

A invisibilidade social no Brasil não é um fenômeno recente. Desde os tempos coloniais, a sociedade brasileira aprendeu a construir muros invisíveis entre “quem importa” e “quem fica para depois”. O tempo passou, mas essa hierarquia continua a definir as políticas públicas – ou a falta delas – e a perpetuar o ciclo de esquecimento das populações vulneráveis. Quando se fala em combate à pobreza, em justiça social, o discurso político brilha em promessas e discursos inflamados, mas, na prática, o interesse em realmente promover mudanças parece tão vazio quanto um palanque após as eleições.
O que significa, afinal, ser invisível no Brasil? A resposta talvez esteja nos milhões de rostos que cruzamos todos os dias, mas que não enxergamos: trabalhadores informais, moradores de rua, comunidades ribeirinhas isoladas, indígenas, pessoas negras e pardas marginalizadas pela cor de sua pele. Dados do IBGE revelam que quase 50 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza, número que salta aos olhos, mas ao qual poucos realmente dão atenção. Quantas políticas públicas específicas foram criadas para essas populações? Quantas saíram do papel?
A questão é que a vulnerabilidade social não é apenas uma questão de falta de recursos, mas de falta de representatividade, de voz e de poder. Não se trata apenas de números e estatísticas: é uma realidade que se esconde em cada esquina e cada beco, e se desenha, dia após dia, nas favelas esquecidas, onde o governo só aparece em ano de eleição. É como se, no grande teatro das políticas públicas, as populações vulneráveis fossem apenas figurantes, vistos de relance, mas sem falas, sem papel de destaque. Quando alguém se atreve a questionar, recebe respostas evasivas, como se o problema não fosse urgente ou, pior, como se não existisse.
O que impressiona é que, em tempos de eleições, essas comunidades ganham uma repentina visibilidade – são ouvidas, questionadas, promessas são feitas. Mas a mudança concreta jamais chega. A história do país está repleta de promessas vazias que se perderam no vento, deixando a população a mercê de políticas paliativas que só servem para manter tudo como está.
E onde estão os representantes dessas vozes marginalizadas? Ou será que os próprios representantes não têm interesse em dar-lhes uma plataforma de verdade? Como entender que, ao longo dos anos, tantas vertentes políticas tenham ignorado sistematicamente os apelos dos invisíveis? Há quem diga que o problema é complexo demais, que falta estrutura ou recursos. Mas será que a questão não é, na verdade, um reflexo de uma indiferença estrutural? Afinal, o que não se vê não se cobra.
E fica a questão: até quando vamos permitir que esses brasileiros continuem invisíveis? Como uma sociedade pode se chamar justa enquanto segue ignorando aqueles que mais precisam? Possivelmente, esteja na hora de mais pessoas romperem com o silêncio que envolve a invisibilidade social no Brasil. Assim, talvez, finalmente, os “esquecidos” deixem de ser apenas um manifesto, e passem a ser, de fato, uma prioridade.
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