
Neste ano, pela primeira vez, o Dia da Consciência Negra se torna feriado em todo o Brasil. Essa conquista representa mais do que uma simples folga no calendário: é uma vitória histórica para a luta do movimento negro, que há décadas reivindica esse reconhecimento. Mas, como jornalista e mulher negra, posso dizer que a criação de um feriado é apenas o começo de uma luta que precisa ser constante e cotidiana para realmente mudar a realidade que enfrentamos.
O dia 20 de novembro foi escolhido para lembrar a morte de Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência e luta contra a escravidão. A data marca um convite para que a sociedade reflita sobre o racismo estrutural e as desigualdades que ainda nos assolam. No entanto, enquanto um dia do ano é feriado para conscientização, nós, pessoas negras, convivemos com essa dura realidade diariamente. Seremos vistos apenas no calendário ou estamos prontos para abrir espaço para um debate real sobre nossas demandas?
O Brasil é um país profundamente marcado pela herança da escravidão e pelo racismo institucionalizado. Nossa história, embora impregnada da contribuição negra, é constantemente ignorada ou distorcida nos livros, na mídia e até mesmo no imaginário popular. Não precisamos só de um dia para a Consciência Negra; precisamos de uma consciência negra que nos guie em cada decisão, em cada política pública, e em cada prática social que vise à igualdade e justiça.

Ser feriado nacional é simbólico, sim. Mas, enquanto se discute o dia livre, o Brasil ainda assiste, ano após ano, à falta de políticas eficazes que combatam a brutalidade policial, à desigualdade no acesso à educação e à saúde, e ao abismo no mercado de trabalho. Para muitas famílias negras, o 20 de novembro pode ser uma pausa do trabalho, mas não da luta cotidiana contra o racismo que enfrentamos desde que nascemos.

Como mulher negra, entendo o peso e a importância do feriado como um reconhecimento. Mas cabe a nós, como sociedade, ir além do calendário. Transformar a Consciência Negra em feriado é um passo. A caminhada, porém, exige mais. Exige um país disposto a enfrentar o racismo em todas as suas formas e a olhar para a população negra como parte fundamental de sua identidade, que merece respeito, oportunidades e reparação histórica.
Se o Dia da Consciência Negra realmente se tornar um dia de reflexão, então que ele nos faça refletir sobre a necessidade de ações concretas. O verdadeiro objetivo é uma sociedade onde não precisemos de um feriado para que as pessoas lembrem que vidas negras importam, e onde o respeito e a igualdade sejam realidade, e não apenas um discurso.
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